As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.

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Devo ser conivente com a desonestidade na empresa?



https://youtu.be/Ga-ApKvf1tw

Você contou de sua dificuldade em lidar com os jeitinhos e práticas desonestas nas quais acaba envolvida na empresa onde trabalha, sem concordar com isso. Sua dúvida é se deve deixar o emprego, mesmo sabendo da dificuldade que terá para encontrar outro em sua idade e nas condições atuais do mercado.

Sua dúvida é a mesma de muitos cristãos que desejam obedecer ao Senhor. Não existe uma fórmula para a resposta, pois cada caso é um caso e cada um deve ter o seu próprio exercício para com o Senhor. Eu, confortavelmente sentado aqui, posso achar um absurdo um cristão matar alguém numa guerra, mas não sei qual é o exercício desse soldado para com Deus. Essas dúvidas foram também de muitos cristãos alemães durante a 2a. Guerra Mundial: deviam obedecer o governo de Hitler ou não?

Eu acredito que o cristão deva obedecer naquilo que estiver de acordo com a Palavra de Deus, mas nem sempre temos todas as informações para julgar isso com precisão. Muitos cristãos alemães nem sabiam das atrocidades que eram cometidas por seu governo, porque a propaganda positiva era muito forte.

Se meu patrão me mandar matar ou roubar, eu devo me opor a isso. Se me mandar mentir, a Palavra de Deus é clara também neste sentido. Se me mandar idolatrar, idem. Agora vem o outro lado da moeda:

Você deve ter lido a história de Naamã em 2 Reis 5. Depois de curado da lepra, ele coloca a Eliseu uma dificuldade semelhante:

"Nisto perdoe o SENHOR a teu servo; quando meu senhor entrar na casa de Rimom para ali adorar, e ele se encostar na minha mão, e eu também tenha de me encurvar na casa de Rimom; quando assim me encurvar na casa de Rimom, nisto perdoe o SENHOR a teu servo."

Como oficial do rei da Síria, Naamã não podia deixar de acompanhar o rei e nem de se encurvar no templo do ídolo, ou seria morto caso se recusasse a fazê-lo. A resposta de Eliseu aparentemente não resolve sua dúvida, não aprova e nem desaprova tal proceder, mas diz apenas:

"E ele (Eliseu) lhe disse: Vai em paz".

Não sabemos se Naamã precisou se encurvar ao ídolo alguma vez depois de sua cura. Deus, que exerceu tamanho poder ao curá-lo de sua lepra, poderia muito bem conseguir para ele uma aposentadoria ou transferência de seu cargo, não sabemos.

O que sabemos é apenas que ali estava um homem realmente convertido que não conseguiria seguir tranquilamente nas mesmas práticas de antigamente, pois agora conhecia o Deus vivo. Creio que Deus tenha deixado a questão em aberto para que cada um tenha seu próprio exercício em situações assim.

A condição de Naamã parece ser igual àquela descrita por Paulo em 1 Coríntios 7:20:

"Cada um fique na vocação em que foi chamado. Foste chamado [ sendo ] servo? Não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião. Porque o que é chamado pelo Senhor, [ sendo ] servo, é liberto do Senhor; e, da mesma maneira, também o que é chamado, [ sendo ] livre, servo é de Cristo. Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens".

Naamã foi chamado sendo servo do rei da Síria, o que incluía frequentar o templo do ídolo. Se ele não tivesse sido chamado por Deus nessa condição, então seria apenas uma decisão de não entrar em um tal relacionamento ou não buscar essa posição elevada próxima do rei. Mas como já estava assim quando foi salvo, o jeito era esperar por uma oportunidade para poder ser livre, como Paulo explica.

Se não tenho a resposta do que você deva fazer, pois isso depende de você orar e colocar diante de Deus, ao menos posso lhe contar uma experiência em um de meus primeiros empregos no qual meu chefe pedia que eu mentisse nas negociações. Eu disse a ele que não mentiria, mas que traria resultados.

Assim desenvolvi algumas técnicas de negociação que pelo menos me mantinham afastado da mentira pura e simples. Por exemplo, quando alguém me perguntava sobre algo que eu não podia revelar (informação confidencial e estratégica na negociação), ao invés de responder que não sabia (o que seria uma mentira), eu respondia com outra pergunta. Tipo assim:

Pergunta: "Você está autorizado por sua empresa a pagar mais?"
Resposta: "Por que você acha que eu deveria pagar mais?". E aí a conversa tomava outro rumo.

Com o tempo e os bons resultados que consegui nas negociações acabei ganhando a confiança e o respeito de meu chefe, de tal modo que quando alguém ligava em meu ramal pedindo para falar com ele, que ficava numa mesa em frente à minha, ele sabia que eu não iria mentir dizendo que ele não estava.

Então, só pela minha conversa ao telefone e pelo nome do interlocutor que eu repetia em voz alta, ele já decidia o que fazer. Quando não queria atender, saía imediatamente da sala e eu dizia para a pessoa que meu chefe não estava na sala, o que tecnicamente era verdade. Era só eu desligar o telefone e ele voltava. Isso acabou virando motivo de diversão entre nós.

É isso, ore, peça a direção de Deus, veja se existe espaço para trabalhar de forma criativa sem desobedecer a Deus ou afligir sua consciência, e se possível testemunhe de sua fé e de sua preocupação em agir de forma desonesta. Há empresas que preferem ter funcionários honestos porque sabem que se contratarem mentirosos, desonestos e ladrões correm o risco de também serem vítimas de seus próprios funcionários.

Outra coisa que você precisa analisar é se os problemas que mencionou estão ligados diretamente ao seu trabalho ou são atividades que não dependem de você. Por exemplo, uma empresa pode ter um caixa dois e eu, que trabalho na linha de produção, não tenho qualquer poder em mudar isso por ser algo que nem passa pelas minhas mãos. Então não vou me afligir tanto quanto se eu fosse o contador da empresa.

Se você fizer uma busca minuciosa, praticamente todas as empresas terão em alguma de suas atividades algo questionável, nem que seja nos impostos que deixa de pagar, na matéria prima de qualidade inferior que usam em seus produtos, ou qualquer outra coisa. E mesmo os funcionários, cristãos ou não, uma vez ou outra também chegam tarde, saem cedo, fingem que trabalham ou usam para si mesmos recursos, materiais e insumos que pertencem à empresa.

Não quero com isso dizer que o erro é algo cabível, ou que um erro justifique o outro, mas apenas mostrar que quando olhamos para os erros da empresa ou dos colegas não podemos deixar também de fazer uma autoanálise. Aí sim, talvez seja a hora de pedir a direção de Deus para resolver tanto as minhas falhas, como também encontrar uma resposta de como não me envolver, ser conivente ou cúmplice nas falhas da empresa onde trabalho ou dos colegas com os quais convivo.

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