As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.

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Como usar os recursos da coleta?



https://youtu.be/n-hRadOESes

Se você já entendeu que os salvos por Cristo da atual dispensação são a Igreja, uma companhia de pessoas com vocação celestial que formam o corpo de Cristo, e não Israel, o povo de Deus do passado que foi escolhido para uma vocação terrena, então terá entendido que o dízimo não se aplica nesta dispensação. Muitas outras coisas que haviam sido ordenadas na Lei dada a Moisés, como templos, sacrifícios, sacerdotes, utensílios santos, etc., igualmente ficaram para trás e são para o cristão figuras das realidades apresentadas em Cristo no Novo Testamento, em especial nas epístolas. Se não entendeu isso é melhor fazer uma leitura atenta da carta aos Hebreus que mostra que hoje temos coisas melhores do que as que tinham os israelitas que lidavam na terra com coisas materiais que eram figuras de coisas celestiais.

Mas por não existir o dízimo na Igreja será que o cristão não teria de ofertar algo daquilo que Deus lhe dá? Teria sim, mas os recursos da assembleia ou igreja devem vir da coleta, e esta oferta não está baseada em uma porcentagem do que recebe por provisão de Deus, mas segundo o coração de cada um. Numa assembleia congregada ao nome do Senhor são estes os recursos que ela terá, não para sustentar algum líder assalariado, mas para as necessidades da assembleia como um todo. Ela também poderá receber ofertas de outras assembleias, quando existirem necessidades específicas e eventuais, como vemos os cristãos fazerem nas epístolas quando enviavam ajuda para assembleias de regiões assoladas pela fome.

Todavia, não vejo na Bíblia algum respaldo para se pedir dinheiro ou estabelecer quanto cada um deva dar, mas certamente encontramos a exortação para sermos generosos. Onde estou congregado com outros irmãos somente ao nome do Senhor costumamos fazer menção a isso quando existe alguma necessidade extraordinária, como por exemplo quando decidimos promover uma conferência ou encontro visando convidar irmãos de outras assembleias. Mas isso não é feito no sentido de constranger ou exigir uma quantia específica de cada um, mas apenas para nortear os exercícios dos irmãos diante de uma necessidade extraordinária.

Uma das necessidades da assembleia pode ser a de um local apropriado para os irmãos se reunirem. É sempre um privilégio irmãos poderem abrir suas casas para receber a assembleia, e vemos na Palavra que assim faziam alguns irmãos do primeiro século. Tive o privilégio de hospedar as reuniões da assembleia dos irmãos reunidos em São Paulo quando ela teve início no minúsculo apartamento onde morava. As reuniões eram na pequena sala que não era suficiente para abrigar todos os irmãos. Então as crianças sentavam-se no chão e nos dois corredores, um que dava para a cozinha e outro para os quartos, colocávamos banquinhos com uma tábua sobre eles para criar um banco comprido onde irmãos mais jovens se sentavam olhando para a parede. Eles podiam ouvir o que era ministrado, mas só viam parede diante de si. Apesar das dificuldades o que guardo na memória são dias felizes que deixaram saudades, pois às vezes os irmãos chegavam com algumas horas de antecedência e iam embora bem depois de a reunião terminar. Tínhamos prazer em estar juntos conversando da Palavra, comendo uma refeição e principalmente lembrando o Senhor e anunciando sua morte no partir do pão à ceia do Senhor.

Com o tempo e conforme a necessidade a assembleia acabou mudando-se para diferentes lugares, sempre tentando abrigar melhor os irmãos. Sabemos que quando as reuniões são na casa de algum irmão ou irmã isso pode trazer alguns percalços se a pessoa tiver incrédulos na família ou se não puder viajar por causa das reuniões. Se a assembleia crescer, um número muito grande de pessoas pode acarretar problemas com limpeza, dificuldade de usar banheiro ou mesmo ruído excessivo quando o irmão ou irmã residirem em um apartamento. Os vizinhos podem acabar reclamando. É preciso lembrar também dos estranhos que vez ou outra aparecerão, nem sempre pessoas realmente convertidas ou com boas intenções. Por serem reuniões caseiras essas pessoas podem pensar que ali o que vale é a informalidade, e acabarem dando palpites no meio da reunião, o que talvez não fariam em um ambiente não domiciliar.

Uma forma prática de se contornar todos esses problemas é buscando um lugar maior e que dê mais conforto para os irmãos, permita maior privacidade no sentido de diminuir a ideia de informalidade que visitantes possam ter, e às vezes até como forma de escolher um bairro mais acessível a um maior número de irmãos em cidades grandes onde o transporte seja um problema. Devemos lembrar que as coisas do Senhor devem vir em primeiro lugar em nossa vida, por isso não há nada de errado em se utilizar dos recursos da assembleia para se alugar um espaço, embora eu particularmente considere que comprar não seria a melhor opção, uma vez que poderia criar problemas com herdeiros caso um dos irmãos incluídos na escritura do imóvel venha a falecer. O que algumas assembleias fazem para contornar isso é criar uma sociedade sem fins lucrativos apenas para possuir o imóvel, o qual então é emprestado ou alugado para a assembleia poder se reunir ali.

Além das necessidades permanentes, como a de um espaço de reuniões, gastos com manutenção, limpeza, auxílio a outras assembleias e provisão para receber irmãos de fora em reuniões especiais, os recursos da coleta podem também ser utilizados para ajudar irmãos que se dedicam à obra do Senhor levando o evangelho ou visitando irmãos e assembleias. Existem alguns que fazem isso entre os irmãos congregados ao nome do Senhor, mas obviamente eles nunca pedem ajuda à assembleia, e nem esta tem um vínculo ou obrigação permanente de auxiliá-los. Eles oram ao Senhor e o Senhor move corações neste sentido, tanto de irmãos individualmente, como da assembleia como um todo para eventualmente auxiliá-los em alguma obra em especial ou até em suas necessidades pessoais.

Quanto às necessidades dos santos quando ficam desempregados, onde congrego temos aprendido que é um assunto muito delicado, e já erramos tanto por falta como por excesso. Imagine que exista uma irmã congregada que tenha um marido incrédulo que fique desempregado. Aí a assembleia decide separar um auxílio mensal para as necessidades da família, o que pode levar o marido incrédulo a parar de procurar emprego por sentir-se confortável naquela situação. A irmã crente obviamente também acabará se acostumando até o dia em que os recursos forem interrompidos. Todos sabemos que até nas famílias mais unidas surgem problemas na hora de dividir o dinheiro de uma venda de imóvel ou herança. Então deixo para você imaginar o resto da história.

A assembleia não tem o papel de substituir o exercício individual que cada um tem de trabalhar para sustentar sua própria casa, e a exceção a isso eu vejo na Palavra que era feita em casos extraordinários, como de uma fome inesperada numa região, ou localmente no caso de viúvas. Ainda assim vemos que esse recurso era restrito às verdadeiramente necessitadas, que não têm filhos que possam ajudá-las a se sustentar. Aprendemos disso que o auxílio da assembleia é algo extraordinário, e não deve se transformar em um "salário" ou "cesta básica", pois isso pode levar um irmão, irmã ou cônjuge incrédulo a se acomodar à situação de eventual falta de trabalho.

Leia atentamente esta passagem e você verá que ela impõe condições bem claras ao auxílio prestado pela assembleia, deixando claro que o dinheiro obtido por meio da coleta espontânea feita no Dia do Senhor não é um recurso para todos em todas as situações.

"Honra as viúvas verdadeiramente viúvas. Mas, se alguma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiro a exercer piedade para com a própria casa e a recompensar a seus progenitores; pois isto é aceitável diante de Deus. Aquela, porém, que é verdadeiramente viúva e não tem amparo espera em Deus e persevera em súplicas e orações, noite e dia; entretanto, a que se entrega aos prazeres, mesmo viva, está morta. Prescreve, pois, estas coisas, para que sejam irrepreensíveis. Ora, se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente. Não seja inscrita senão viúva que conte ao menos sessenta anos de idade, tenha sido esposa de um só marido, seja recomendada pelo testemunho de boas obras, tenha criado filhos, exercitado hospitalidade, lavado os pés aos santos, socorrido a atribulados, se viveu na prática zelosa de toda boa obra. Mas rejeita viúvas mais novas, porque, quando se tornam levianas contra Cristo, querem casar-se, tornando-se condenáveis por anularem o seu primeiro compromisso. Além do mais, aprendem também a viver ociosas, andando de casa em casa; e não somente ociosas, mas ainda tagarelas e intrigantes, falando o que não devem. Quero, portanto, que as viúvas mais novas se casem, criem filhos, sejam boas donas de casa e não deem ao adversário ocasião favorável de maledicência. Pois, com efeito, já algumas se desviaram, seguindo a Satanás. Se alguma crente tem viúvas em sua família, socorra-as, e não fique sobrecarregada a igreja, para que esta possa socorrer as que são verdadeiramente viúvas. Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário." (1 Tm 5:3-18).

Alguns pontos deste texto devem ser observados. Primeiro, existem pessoas (no caso aqui as viúvas) que são realmente necessitadas, outras não. O irmão ou irmã passando por um problema de desemprego com uma Ferrari na garagem certamente possui recursos para se manter se estiver disposto a cortar na própria carne ao invés de esperar a beneficência de outros. A assembleia também não é uma instituição filantrópica ou de beneficência voltada a resolver o problema da pobreza e da fome no mundo. Hoje é comum as chamadas "igrejas" da cristandade se transformarem em entidades assistenciais, e a tendência é cada vez maior justamente em países desenvolvidos, onde "igreja" se tornou sinônimo de obra beneficente, uma vez que nos países principalmente da Europa existem até mesmo clérigos agnósticos e ateus dirigindo essas congregações. Quando você tira Cristo como centro e motivo da reunião dos cristãos, a caridade acaba sendo um substituto aceito e louvado pela sociedade incrédula para justificar a existência de um agrupamento de cristãos. Lembre-se de que na cabeça de um incrédulo, que não compreende a salvação pela fé em Cristo e no seu sacrifício, "cristão" é aquele que está tentando ir para o céu fazendo caridade.

Mas será que é isso o que encontramos na doutrina dos apóstolos? Aqueles que individualmente quiserem fazer algo com seus próprios recursos para ajudar necessitados, enfermos, drogados, independente de quem sejam ou onde estejam, podem fazer isso como uma iniciativa pessoal sem envolver a assembleia. Mas os recursos da assembleia devem ser voltados para as necessidades da própria assembleia, e talvez um versículo que nos ajude a entender isso seja este, dirigido inicialmente às igrejas da Galácia: "E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos. Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé." (Gl 6:9-10). Os "da família da fé" são crentes, não incrédulos.

No caso de irmãs viúvas e necessitadas que tenham familiares em comunhão os parentes devem ser os primeiros a ajudar. Quando não ajudam a opinião que Deus tem deles é a pior possível: "Se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente"  (1 Tm 5:8). O auxílio é restrito às que são verdadeiramente viúvas e sem nenhuma fonte de recursos ou familiares crentes que possam ajudá-las. Mas o apóstolo ainda ensina que alguém assim deve ter tido uma história de dedicação ao marido, aos filhos e aos irmãos em suas necessidades. Obviamente ele não está aqui falando de viúvas que vivam ociosas ou estejam em busca de um novo relacionamento, como o apóstolo diz no final da passagem, e nem daquelas que nunca tiveram um exercício sequer de hospitalidade, cuidado e liberalidade para com as necessidades dos santos.

O texto inclui também aqueles que trabalham na obra do Senhor ou se afadigam na Palavra e no ensino. Apesar de não existir aqui a ideia de um salário mensal, embora algumas traduções  como a Almeida Revista e Atualizada possam induzir esse pensamento ao colocar "dobrados honorários", o sentido é melhor traduzido pela Almeida Revista e Corrigida como "duplicada honra", a continuação que usa o exemplo do boi que debulha mostra que é obrigação da assembleia verificar se esses irmãos estão tendo os recursos necessários para que seu trabalho na obra do Senhor não seja interrompido. Nos países de tradição católica muitos chegam à coleta com as moedas que sobraram do troco da padaria, condicionados que fomos a pensar que a coleta seja uma esmola. Mas a Palavra de Deus não fala em esmola, mas em recursos para a obra do Senhor e para os que são realmente necessitados.

Se você vê um irmão ou irmã empenhado ativamente na obra do evangelho e nas visitas aos irmãos, tendo despesas com a própria família por abrirem mão de um trabalho secular, e também gastando com viagens, hospedagem e material de evangelização, de onde você acha que ele obteve aqueles recursos? Certamente não terá sido de alguma esmola no estilo ao que estamos acostumados. Sem pedir nada a ninguém, ele deve ter orado ao Senhor e apresentado ao Senhor da seara suas necessidades. Então o próprio Senhor, que é o maior interessado na sua obra e é quem envia os obreiros, terá movido corações, tanto de irmãos individualmente, como de assembleias coletivamente, para auxiliarem em suas necessidades.

Mais sobre o assunto nestes links:
http://www.respondi.com.br/2006/12/voc-dizimista.html
http://www.respondi.com.br/2007/01/devo-dar-o-dzimo.html
http://www.respondi.com.br/2013/07/hebreus-7-ensina-que-devemos-dar-o.html
http://www.respondi.com.br/2010/04/o-cristao-deve-dar-dizimo-ou-ofertas.html
http://www.respondi.com.br/2013/08/por-que-nao-posso-ofertar.html
http://www.respondi.com.br/2015/07/nao-devo-ser-pobre-nem-rico.html
http://www.respondi.com.br/2008/12/devemos-voltar-ao-cristianismo.html
http://www.respondi.com.br/2005/05/em-que-templo-devo-adorar.html
http://www.respondi.com.br/2012/03/devo-dar-esmolas.html

por Mario Persona

Mario Persona é palestrante e consultor de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional (www.mariopersona.com.br). Não possui formação ou título eclesiástico e nem está ligado a alguma denominação religiosa, estando congregado desde 1981 somente ao Nome do Senhor Jesus. Esta mensagem originalmente não contém propaganda. Alguns sistemas de envio de email ou RSS costumam adicionar mensagens publicitárias que podem não expressar a opinião do autor.)

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