As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.

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As mulheres sao proibidas de julgar?



https://youtu.be/wD5nlj5Hhuo

Sua dúvida é se os"mandamentos do Senhor" (1 Co 14:37) de que "as vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja." (1 Co 14:34-35) seria para impedir que elas julguem o que é dito pelos profetas que ministram.

Sua dúvida surgiu quando assistiu ao vídeo de um "Reverendo" (título dado a Deus em Sl 111:9 na versão King James), dizendo que em 1 Coríntios 11 Paulo estaria autorizando a mulher a profetizar (falar da parte de Deus), livremente e em qualquer lugar, inclusive nas reuniões da igreja; mas em 1 Coríntios 14:34-35 a proibição seria apenas no sentido de ela julgar o que estaria sendo dito pelos dois ou três profetas citados no versículo 29 do mesmo capítulo, que diz: "E falem dois ou três profetas, e os outros julguem."

Confesso que já tinha escutado várias desculpas para se deixar de lado aquilo que Paulo chama de "mandamentos do Senhor" (1 Co 14:37), mas este argumento é novidade para mim. Alguns dizem que Paulo proibia mulheres de se expressarem por ser um solteirão recalcado e machista. Outros afirmam que ele estaria seguindo o que era costume corrente na época em uma sociedade machista, que impedia as mulheres de falarem em reuniões públicas. Já ouvi também o argumento de que a ordem ali era só no sentido de tagarelar, cochichar e fofocar, e me espanto quando vejo alguma mulher cristã concordar com este argumento que reduz a mulher à condição de fofoqueira. Agora me chega esta nova versão, que diz que a ordem teria sido dada para proibir a mulher julgar o que estivesse sendo dito pelos dois ou três profetas que ministrassem na reunião.

Eu particularmente acredito que uma mulher cristã seja perfeitamente capaz de julgar o que ela escuta alguém dizer e também creio que a ordem ali 1 Coríntios 14 não seja neste sentido. A mulher pode sim julgar, mas não deve manifestar publicamente seu julgamento por ser esta a tarefa dos outros profetas, ou seja, dos outros que ministram: "E falem dois ou três profetas, e os outros [profetas] julguem". Para uma mulher apontar o ensino falho implicaria ela apresentar também qual seria o ensino correto, o que equivaleria a ensinar publicamente. E Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, escreve em 1 Timóteo que "a mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio. Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão. " ( 1 Tm 2:11-14).

Mas uma irmã espiritual pode muito bem identificar um equívoco no ensino trazido na reunião da assembleia por um irmão que ministra e, se nenhum varão percebeu ou apontou o erro, chegar em casa e alertar seu marido (ou um irmão, caso seja solteira), indagando se aquilo que foi dito estaria de acordo com o ensino das Escrituras. Isso serve de dupla checagem no que foi ministrado quando a mulher atua em consonância com seu marido. Assim como qualquer irmão em Cristo, as irmãs têm o Espírito Santo habitando nelas e discernimento para entender a Palavra de Deus.

Aliás, muitas têm um conhecimento e discernimento muito maior do que o de muitos irmãos, pois elas também foram vestidas da nova natureza ou "novo homem", "que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos." (Cl 3:10-11). O que lhe é vedado é ensinar com autoridade de homem e também falar nas reuniões da igreja ou assembleia.

Um belo exemplo desse trabalho conjunto esposa-marido você encontra em Áquila e Priscila, o casal que ajuda Apolo a entender melhor as coisas de Deus. Na passagem que relata esse episódio aprouve ao Espírito Santo colocar o nome de Priscila antes do de Áquila, e eu particularmente não creio que tenha sido apenas por educação ou cavalheirismo. Ali diz:

"Nesse meio tempo, chegou a Éfeso um judeu, natural de Alexandria, chamado Apolo, homem eloquente e poderoso nas Escrituras. Era ele instruído no caminho do Senhor; e, sendo fervoroso de espírito, falava e ensinava com precisão a respeito de Jesus, conhecendo apenas o batismo de João. Ele, pois, começou a falar ousadamente na sinagoga. Ouvindo-o, porém, Priscila e Áqüila, tomaram-no consigo e, com mais exatidão, lhe expuseram o caminho de Deus." (At 18:24-27).

Na saudação de 1 Coríntios 16:9 Paulo cita primeiro Áquila e depois Priscila, "com a igreja que está em sua casa", colocando a ordem instituída por Deus no lar, o que é corroborado também em 1 Coríntios 11:3, que aponta que "Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo". Mas no episódio envolvendo Apolo o Espírito Santo menciona Priscila antes de Áquila. Sobre isso escreve William Kelly:

"Apolo nos é apresentado sendo ensinado por Áquila e Priscila, que 'tomaram-no consigo e, com mais exatidão, lhe expuseram o caminho de Deus'. Eu duvido que estaria de acordo com a vontade de Deus que uma mulher fizesse isso sozinha, mas aqui ela, juntamente com seu marido, instruíram Apolo o melhor que puderam. Ora, não tenho dúvida de que Priscila conhecia mais que seu marido, portanto era desejável que ela contribuísse com sua parte nessa ajuda. Todavia, a maneira de Deus continua a ser invariavelmente sábia, e fica bastante evidente que ela fez isso em conjunto com seu marido, e não independente dele, quando essa importante tarefa foi executada" —  "Introductory Lectures on Acts", W. Kelly.

Cabe aqui uma curiosidade. Quando visitei a Casa da Moeda do Brasil descobri que existe uma seção ali onde são empregadas apenas mulheres. Homens não servem para fazer o trabalho de examinar cuidadosamente as grandes folhas de papel impresso com as cédulas antes de serem cortadas. A razão, segundo me informaram, é que as mulheres são naturalmente mais bem capacitadas que os homens para descobrir falhas de impressão, e também por possuírem uma visão periférica mais ampliada. Aquilo apenas confirmou o que todo marido sabe: que as mulheres são melhores que os homens para detectar falhas. Obviamente essa é uma capacidade natural da mulher, e estamos falando aqui dos aspectos espirituais, e para isso cabe uma observação feita por Charles Mackintosh, ao comentar as várias citações de Priscila e Áquila nas Escrituras:

"O que eles teriam feito? Eles eram colaboradores do apóstolo. Eles 'expuseram as suas cabeças' (Rm 16:4) — arriscaram a própria vida. E Paulo acrescenta, "o que não só eu lhes agradeço, mas também todas as igrejas dos gentios.' Todos podiam perceber isso. Eles haviam conquistado uma boa reputação. Haviam conquistado a confiança e estima do apóstolo e de todas as assembleias. Assim deve ser. Não podemos pular de uma hora para outra para dentro confiança e afeição das pessoas. Devemos nos encomendar a nós mesmos por uma vida de justiça prática e devoção pessoal. 'Assim nos recomendamos à consciência de todo o homem, na presença de Deus' (2 Co 4:2)". — "David's Companions and Paul's Friends", C. H. Mackintosh.

Nunca é demais falar do exemplo de Priscila e Áquila em detectar o conhecimento deficiente que Apolo possuía até ali, conhecendo apenas o batismo de João Batista, e ajudá-lo a entender melhor a completa revelação de Deus. Muitas vezes somos mais prontos a criticar alguém com pouco conhecimento da Palavra do que a nos dispormos a ajudar em sua instrução, como fez esse casal: "tomaram-no consigo e, com mais exatidão, lhe expuseram o caminho de Deus." (At 18:26). C. E. Stuart comenta:

"[Apolo] ensinava o que conhecia, mas em termos de um completo ensino cristão ele ainda estava deficiente... Priscila e Áquila perceberam isso ao ouvi-lo e, levando-o consigo para casa, lhe ensinaram o caminho de Deus mais perfeitamente... Provavelmente a esposa estava mais apta em passar conhecimento que seu esposo. Na privacidade do lar os dois podiam assim servir, comunicando a verdade que um dia também desconheceram, mas que certamente haviam aprendido de seu convívio com Paulo." — "Tracings from Acts of the Apostles", C. E. Stuart.

Mas, voltando à questão que você trouxe, será que em 1 Coríntios 14:34 estaria escrito: "As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido JULGAR"?. Não, a proibiçãonão é no sentido de "julgar", mas de "falar", um verbo com uma abrangência muito maior. Portanto sinto dizer que o "Reverendo" está equivocado ou deliberadamente torcendo o significado da passagem para adaptá-la aos ditames da organização à qual pertence. Ele também parece confundir os capítulos 11 e 14 como se fosse tudo a mesma coisa. O capítulo 11 nos fala da ordem estabelecida por Deus na Criação, daí a expressão: "Não vos ensina a mesma natureza que é desonra para o homem ter cabelo crescido? Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu." (1 Co 11:14-15). O assunto ali é na natureza ou Criação, que envolve também uma ordem estabelecida na qual "Cristo segundo a carne" aparece hierarquicamente sob Deus, muito embora ele sempre foi, é e será "sobre todos, Deus bendito eternamente" (Rm 9:5).

Repare também que em 1 Coríntios 11:4-5 é colocada uma ordem não apenas à mulher (de cobrir a própria cabeça), mas também ao homem (de descobri-la) quando ora ou profetiza (fala da parte de Deus). O assunto é genérico, na esfera da Criação, mas em 1 Coríntios 14 o assunto é a reunião da igreja ou assembleia. Portanto, de um modo geral e independente de onde esteja, a mulher deve ter a cabeça coberta quando ora ou profetiza, e o homem a cabeça descoberta.

Curiosamente costumamos ler a passagem do capítulo 11 atentando apenas para o que é dito da mulher, e alguns acham machismo da parte de Paulo aconselhar as mulheres a cobrirem a cabeça durante essas atividades, mas nunca vi ninguém acusar o apóstolo de interferir no modo como os homens devem se portar obrigando-os a tirar o chapéu nessas situações.

Portanto, em 1 Coríntios 11 o assunto é no contexto geral, e em 1 Coríntios 14 é a condição no particular, na reunião da Igreja. Para entender isso, pense na velocidade máxima permitida no Brasil que é de 120 km/h. Porém nas ruas ela pode ser limitada a 10, 20, 30, 40, 50 ou 60 km/h dependendo da placa que assinale essa limitação para uma condição em particular. Vá tentar explicar para o policial que a 120 km/h na frente de uma escola você está com a razão. Vá explicar ao Senhor que por em 1 Coríntios 11 a Palavra de Deus dizer que a mulher profetiza que na reunião da igreja de 1 Corintios 14 ela estaria livre para fazer o mesmo.

Qual a lição que você deve tirar disso e da mensagem do vídeo gravado pelo clérigo que você viu? Que alguém comprometido em obedecer um determinado sistema religioso irá necessariamente obedecer às diretrizes determinadas por esse sistema, mesmo quando elas forem contrárias ao texto da Bíblia. Por isso aconselho você a não ter amarras com nenhuma religião, denominação ou sistema religioso e assim ficar livre para obedecer somente a Palavra de Deus. Em seu texto "One-sided Theology", C. H. Mackintosh comenta da dificuldade de se permanecer fiel às Escrituras quando sujeito a uma organização religiosa ou corrente teológica. Ele escreve:

"Deus... não se prendeu aos estreitos limites de alguma escola de doutrina, seja ela alta,, baixa ou moderada. Deus se revelou. Ele expôs os profundos e preciosos segredos de seu coração. Ele descortinou seus conselhos eternos relativos à Igreja, a Israel, aos gentios e à Criação como um todo. Os homens podem tentar confinar o oceano em baldes que eles próprios criaram, do mesmo modo como tentam confinar o vasto espectro da revelação divina dentro dos frágeis recipientes dos sistemas humanos de doutrina. É impossível fazê-lo e jamais deveria ser tentado. O melhor é deixar de lado os sistemas e escolas de divindade e aproximar-se como uma criança da eterna fonte das Sagradas Escrituras, e ali beber dos ensinos vivos do Espírito de Deus.

Nada é mais prejudicial à verdade de Deus, mais estéril para a alma, ou mais subversivo para qualquer crescimento e progresso espiritual do que a mera teologia, seja ela alta ou baixa — calvinista ou arminiana. É impossível que alguém progrida além dos limites do sistema ao qual está ligado. Se sou instruído nos 'Cinco Pontos' do calvinismo como se fossem eles 'a fé dos eleitos de Deus', não poderei sequer pensar em buscar algo além disso, desaparecendo assim de meu campo de visão o mais glorioso campo de verdade celestial. Fico atrofiado, estreito, parcial; e corro o risco de cair naquele estado de espírito estéril e pedregoso que acaba me deixando ocupado com meros pontos doutrinários ao invés de ocupar-me com Cristo. Um discípulo da alta escola calvinista de doutrina não ouvirá falar de um evangelho anunciado a todo o mundo — do amor de Deus para o mundo, das boas novas para cada criatura sob os céus. Tudo o que possui é um evangelho para os eleitos. Por outro lado, um discípulo da baixa escola, ou arminiana, não escutará da segurança eterna do povo de Deus. Sua salvação dependerá em parte de Cristo e em parte de si mesmo. De acordo com esse sistema doutrinário, a canção dos redimidos deveria ser alterada. Ao invés de 'Digno é o Cordeiro' seríamos obrigados a acrescentar '...e digno somos nós'. Poderíamos estar salvos hoje, porém perdidos amanhã. Tudo isso desonra a Deus e priva o cristão de qualquer paz verdadeira.

Não escrevemos com a intenção de ofender o leitor, longe de nós tal pensamento. Não estamos falando de pessoas, mas de escolas de doutrina e sistemas de divindade, os quais gostaríamos sinceramente de exortar nossos amados santos a abandonarem de uma vez para sempre. Nenhum deles contém a completa verdade de Deus. Existem certos elementos de verdade em todos eles, mas a verdade geralmente é neutralizada pelo erro, e mesmo que encontrássemos um sistema que não apresentasse nada além da verdade, ainda assim ele não conteria toda a verdade. O efeito desses sistemas sobre a alma é o mais pernicioso possível, pois leva as pessoas a se gabarem de possuírem a verdade de Deus, quando na verdade possuem apenas um sistema humano parcial... Volto a dizer que raramente encontramos um discípulo sequer de qualquer escola de doutrina que possa encarar as Escrituras como um todo. Ele irá citar passagens favoritas de modo contínuo e reiterado, mas descartará como inadequada uma grande parte das Escrituras". — "One-sided Theology", C. H. Mackintosh

Veja também:
http://www.respondi.com.br/2012/12/por-que-os-pastores-nao-entendem-estas.html

por Mario Persona

Mario Persona é palestrante e consultor de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional (www.mariopersona.com.br). Não possui formação ou título eclesiástico e nem está ligado a alguma denominação religiosa, estando congregado desde 1981 somente ao Nome do Senhor Jesus. Esta mensagem originalmente não contém propaganda. Alguns sistemas de envio de email ou RSS costumam adicionar mensagens publicitárias que podem não expressar a opinião do autor.)

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