As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.

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Se não existe Deus, tudo está liberado?



https://youtu.be/CvmPIgctvJQ

Você escreveu:

"Eu fico impressionado com esse tipo de pensamento de vocês crentes: Se não existe Deus então tudo é liberado, podemos matar, roubar, agredir e fazer tudo de errado porque o inferno não existe. Sempre quando ouço isso lembro do que Einstein disse: 'Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa após a morte, então realmente somos um grupo muito desprezível'"

A grande dificuldade do ateísmo tem a ver com a falta de um referencial absoluto. Deus é o referencial absoluto do crente, o seu norte. Considerando que o ateísmo não provê esse referencial, é preciso criar outro, e foi o que você fez aqui. Enquanto eu cito uma passagem da Bíblia para fundamentar um pensamento, você cita Einstein para fundamentar o que acredita. Assim como eu, você precisou lançar mão de um referencial, no caso o "deus" Einstein e seus oráculos. Não percebe que somos iguais quando fazemos isso?

Mas a realidade é que, se não existe Deus, tudo é liberado, pois não existe um referencial, uma lei ou autoridade moral que esteja acima da vontade própria do ser humano. Você, que crê na teoria da evolução, olhe à sua volta. A natureza é extremamente cruel, é uma competição acirrada pelo predomínio do mais forte. Quem comer o outro mais rápido sobrevive.

Se a sobrevivência do mais forte ou mais capaz é a tônica do pensamento evolucionista que exclui Deus de sua equação, então não havia nada de errado com Hitler em exterminar judeus, ciganos e portadores de deficiência. Eles ameaçavam a evolução do povo ariano. Então não há nada de errado com algumas tribos de índios brasileiros que continuam enterrando vivas a crianças deficientes, gêmeas e albinas. Nada de errado com o costume indiano, interrompido por pressão de cristãos, de imolar a viúva ao lado do marido falecido. Ou o costume oriental de afogar a primogênita caso fosse menina.

Quando você fala em "matar, roubar, agredir e fazer tudo de errado", baseado em quê decidiu que matar, roubar e agredir é errado? Gralhas roubam, leões matam e cangurus agridem, mas ninguém questiona seus atos. Por que os humanos não podem também matar, roubar e agredir, se isso ajudar a aumentar suas chances de sobrevivência? Traficantes fazem tudo isso e acreditam não haver nada de errado. Com que autoridade você diria a um traficante que ele está errado? Ele tem tanto direito quanto você de viver do jeito que acredita ser melhor para sua sobrevivência.

O problema é que você não consegue viver sem um referencial, e adotou este, de que matar, roubar etc. sejam coisas erradas, sem conseguir explicar de onde tirou tal ideia ou não querer admitir que ela é fruto da influência judaico-cristã da sociedade ocidental onde você nasceu.

Ao dizer que é errado o traficante matar, você assume a mesma posição que assume ao dizer que é errado eu acreditar que exista um Deus. Mais uma vez estamos no mesmo barco, cada um de nós adotando um referencial próprio e dizendo para o outro que o outro está errado. A diferença é que, quando eu digo que matar etc. é errado estou atribuindo a Deus a origem dessa ideia. Não se engane: sempre nos baseamos em algo ou alguém superior a nós mesmos. No seu caso aqui um oráculo de Einstein lhe serviu bem para isso.

Outra vez em seu email você apelou para uma lei moral que não faz qualquer sentido se não existir uma autoridade superior. Você escreveu: "Você não consegue ser bom apenas por saber que é o certo?" Percebe o que está dizendo? Para mim "certo" é crer em Deus, portanto na minha opinião eu sei o que é certo e você não sabe. Mas é claro que esta é uma posição idêntica à sua, não é mesmo? É idêntica porque você também não é capaz de definir o certo e o errado sem uma autoridade superior.

Quando criança, seus pais definiam o certo e errado. Seus professores faziam o mesmo na esfera do ensino. Na sociedade é a polícia, o juiz, o governo quem determina o que é certo e o que é errado. Se você questiona o direito e autoridade de Deus em julgar, terá de questionar também todas as outras formas de autoridade. Afinal, que direito têm elas de castigar quem não anda segundo o seu catecismo? Talvez você diga que é diferente, pois essas autoridades são democraticamente constituídas. Não seja ingênuo, a maioria dos países e povos do mundo tem governos nem um pouco democráticos.

E mesmo os governos democráticos têm uma história que nem sempre lhes dá legitimidade. Acho que é de Alexandre Dumas a frase "traição é uma questão de datas". Quem ontem era terrorista, hoje é governo em muitos lugares do mundo. Até na história dos Estados Unidos o governo atual nada mais é do que uma consequência de um grupo de terroristas que derrubou o governo legalmente estabelecido pela coroa britânica quando assumiu a colonização da América. E que, por sua vez, derrubou o governo de direito dos índios que viviam na terra antes da chegada dos homens brancos. Adotamos as autoridades por conveniência ou por estarem em vigor no período de nossa existência. "Traição é uma questão de datas".

Mas precisamos de uma autoridade superior, precisamos de um pai, de um professor, de um chefe, de um delegado... Não entendeu que temos "deuses" em vários níveis da hierarquia da definição e imposição do que é certo e errado? Quem foi que inventou isso? E quando a pirâmide atinge o nível da autoridade máxima, quem você coloca lá? Se não existir ninguém lá, então a autoridade que está logo abaixo, seja ela uma autoridade civil ou um filósofo ateu, acaba sendo o pico da pirâmide, o seu deus.

Você continua seu raciocínio que, na verdade, dá voltas:

"Vocês vivem afirmando que nós, seres humanos, somos superiores aos outros animais mas não parece. As abelhas vivem em harmonia entre elas sem precisar ter medo de um Deus punitivo, os peixes de um cardume vivem bem entre si sem precisar ter medo de um grande deus peixe que manda pra grelha eterna os peixes pecadores".

A ideia de abelhas e peixes vivendo em harmonia é uma falácia romântica. Para que qualquer coisa atinja um equilíbrio harmônico é preciso que exista uma equiparação das forças que atuam sobre essa coisa, um equilíbrio de forças. Já criei abelhas e elas não são anjinhos. Existe uma hierarquia e, do ponto de vista humano, abelha não tem coração. Você não encontra enfermarias para abelhas doentes numa colmeia. Elas simplesmente são eliminadas quando adoecem ou envelhecem. É a lei da sobrevivência do mais forte. Além disso, elas vivem num ambiente extremamente competitivo e cruel. Quando criava abelhas perdi 5 colmeias para as formigas, que as atacaram pelo simples motivo de que a cera e as larvas eram apetitosas e boa fonte de proteína para a sobrevivência do formigueiro.

Quanto aos peixes, não existe ambiente mais impiedoso do que o fundo do mar. Diga rápido o nome de uma criatura subaquática vegetariana. Demorou. A quase totalidade dos peixes e outros animais marinhos é carnívora. Na natureza o maior come o menor, e você mesmo vive fazendo isso quando toma uma inocente canja de galinha. É vegetariano? Não adianta. O que o faz pensar que tem mais direito de sobreviver do que um pé de alface? Até mesmo quando usa antibióticos ou derrama desinfetante na privada para matar as bactérias você está agindo em seu próprio interesse de sobrevivência. Se todos os seres têm direitos iguais, por que matar um ser humano seria errado, e usar desinfetantes não? A competição é constante: se você não matar os mais fracos antes, eles acabam matando você. Sem Deus, esta deve ser a forma lógica da sobrevivência.

Você mais uma vez faz a mesma pergunta, só de outra forma: "A gente precisa temer o inferno pra agir corretamente?" A ideia de que uma pessoa se torna cristã por medo do inferno é típica de quem não conhece o evangelho (explico isto aqui). Muito bem, vamos eliminar Deus da equação e eu pergunto: Quem tem o direito de decidir o que é "agir corretamente"? Para um muçulmano radical, agir corretamente é extrair o clítoris das meninas para que não tenham prazer no ato sexual quando crescerem. Existe um movimento hoje contra isso, o que é obviamente resquício da influência judaico-cristã na sociedade ocidental, mas o que dá a esse movimento o direito de dizer aos muçulmanos radicais como devem agir?

Dentro da sociedade deles, extrair o clítoris de uma criança pode ter o mesmo papel cerimonial de cortar o prepúcio de um garotinho judeu. Em ambos os casos, agora raciocinando como faria um antropólogo ateu evolucionista, a manutenção de uma cultura religiosa com todos os seus rituais pode ter sido útil para a sobrevivência da espécie e a harmonia dentro do "cardume", só para usar o seu raciocínio. Eliminar isso poderia ser tão fatal para uma tribo ou sociedade quanto proibir a extração da vesícula ou de um apêndice supurado seria uma ideia absurda para a prática da medicina moderna.

Uma das sociedades mais evoluída e organizada de todos os tempos foi a sociedade romana de há dois mil anos. Os romanos viviam muito bem com sua prática de jogar no lixo bebês do sexo feminino e enxergarem a prostituição como prática salutar como alternativa para a mesmice da vida de um casal. O que hoje chamamos de pedofilia não era mais pecado do que ter um poodle de estimação. Um homem adulto podia comprar um menino para ter em casa como fazemos hoje com um animal de estimação, com a diferença de que o romano usava o menino como escravo sexual. Possuir meninos para práticas sexuais era algo normal, não só na Roma antiga, mas na Grécia e no oriente. Foram os abelhudos cristãos, depois dos judeus, que exerceram influência na sociedade romana contra práticas como aborto, infanticídio, adultério, prostituição e pedofilia. Que direito tinham os cristãos de dizer aos romanos o que era certo ou errado se não existe um Deus e se a Bíblia não passa de um conto de fadas?

Existe um argumento do ateísmo que alega que o pensamento religioso fez parte da evolução do ser humano, tendo sido necessário por milênios até como uma forma de preservação da espécie. O pensamento evolucionista alega que não passamos de uma feliz combinação de átomos e nossos pensamentos e crenças nada mais são do que interações químicas favoráveis à sobrevivência, portanto essas sinapses religiosas teriam sido muito úteis até aqui. Mas, alegam alguns ateus, atingimos um grau de evolução que nos permite abrir mão dessas sinapses religiosas e seguirmos adiante acreditando apenas na razão.

O problema é que, neste caso, as sinapses da razão não serão diferentes das sinapses da religião, pois a construção desse raciocínio fundamenta-se em reações químicas do cérebro tanto quanto a construção do raciocínio religioso. Se assim for, o que garante que amanhã não iremos chegar a uma nova conclusão de que a crença na razão não passou de um período evolutivo quando isso era importante para a sobrevivência de nossa espécie? Mesmo assim, o próximo raciocínio também estará comprometido pela mesma lógica.

Como pode ver, o ateísmo tem muitas coisas não resolvidas e é preciso mais fé para crer nisso do que para crer que exista um Deus criador, mantenedor e juiz. Eu acho que você precisa mesmo é de Deus. Sugiro que comece lendo a respeito de Jesus. Há muito o que aprender com ele. Afinal, se você crê na evolução, não irá querer pensar que a opinião que defende hoje é a derradeira, não é mesmo? Sua crença na evolução deve incluir até mesmo a possibilidade de se tornar um crente em sua próxima etapa evolutiva. A menos que considere isso errado, mas aí voltamos ao início de nossa conversa: quem tem o direito de determinar o que é certo e errado?

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