As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.

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O que seria comer indignamente a ceia?



https://youtu.be/J9s4SsjhN-g

A revelação dada a Paulo de como a ceia do Senhor deveria ser celebrada não foi a mesma recebida dos outros apóstolos quando o Senhor ainda estava vivo e sentados com eles à mesa no dia da Páscoa dos judeus. Paulo recebeu "do Senhor" as instruções, as quais ensinou as irmãos de Corinto:

1Co 11:23-26  Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha.

O motivo de sua dúvida, porém, é a passagem que vem a seguir. O que seria comer do pão e beber do cálice indignamente?

1Co 11:27-32  Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem. Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo.

Devemos ter em mente que somos por natureza indignos de receber qualquer favor de Deus. Nossa atitude deve ser a mesma daquele centurião que buscava a cura para seu servo mas não se considerava digno que o Senhor Jesus entrasse em sua casa para curá-lo; ou a de João Batista, que não se considerava digno nem de desatar as correias das sandálias do Senhor; ou ainda a de Paulo, o apóstolo, que não se considerava digno de ser chamado de apóstolo, tal foi o sofrimento que havia causado aos cristãos.

Mat_8:8  E o centurião, respondendo, disse: Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado, mas dize somente uma palavra, e o meu criado há de sarar. 

Joã_1:27  Este é aquele que vem após mim, que é antes de mim, do qual eu não sou digno de desatar a correia da alparca

1Co_15:9  Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus

Mas o assunto tratado aqui não é nossa indignidade natural e pessoal. Uma vez lavados pelo sangue de Cristo, Deus nos fez dignos para nos aproximarmos dele com base no valor que o sacrifício de Jesus tem aos olhos de Deus, e não com base em nossa dignidade pessoal. É por isso que diz "examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim [examinado] coma" (vers. 28). Não se trata de o crente fazer um exame prévio para decidir se deve ou não comer e beber (pois se assim fosse ele jamais comeria), mas sim de comer e beber neste espírito de alguém que está examinado. "E assim coma".

Porém esta passagem em especial deve ser vista no contexto da ruína que havia caído sobre a assembleia em Corinto e a falta de cuidado e reverência que cercava a ceia do Senhor. Tratar a ceia com tamanha falta de respeito era ser culpado do corpo e do sangue do Senhor. Faz lembrar o caso de Uzá, que tentou aparar com sua mão a Arca da Aliança que pendia da carroça e foi morto por Deus. Independente de sua boa intenção ou fidelidade a Deus, aquela não era a maneira de se transportar a Arca e ninguém estava autorizado a tocá-la.

Um paralelo que pode ser feito é o dos símbolos de uma pátria, como a sua bandeira. Existe toda uma exigência de respeito e solenidade no modo como a bandeira deve ser tratada, e qualquer um sabe que quando vemos no noticiário uma bandeira de um país sendo cuspida, pisoteada e queimada por opositores, entendemos bem a gravidade da situação. É como se estivessem cuspindo, pisoteando e queimando o próprio país.

A falta de um juízo próprio na assembleia de Corinto no modo como a ceia do Senhor estava sendo tratada tinha suas consequências: muitos estavam fracos e doentes, e muitos já dormiam, isto é, morreram. Sim, a morte é uma das maneiras como o Pai disciplina seus filhos. Quando um filho seu não anda de forma a servir de testemunho neste mundo, Deus pode simplesmente chamá-lo, interrompendo sua vida aqui. É isto que a Bíblia chama de "pecado para a morte". O crente é salvo mesmo assim, mas sua vida foi perdida. Se estava pronto para ir para o céu graças ao sacrifício de Cristo, não estava preparado para viver na terra como um testemunho para ele. Mais uma vez o ato impensado de Uzá me vem à mente.

Portanto, comer e beber a ceia como se fosse uma simples refeição, uma coisa comum ou sem fazer um juízo próprio, é comer e beber "indignamente". É ser culpado, não apenas de desonrar a Pessoa ali representada, como seu corpo e seu sangue, cujas figuras, pão e vinho, estão sendo tratadas com tamanha indiferença. Devemos ter em mente nossa extrema culpa, que demandava o juízo divino, o qual foi satisfeito pelo valor infinito do sofrimento de Cristo atingido pelo juízo contra o pecado lançado sobre ele, e pela graça que assim nos alcançou. Para o cristão não deveria existir um momento mais importante e solene do que este em que ele recorda, a pedido do Senhor, a causa primeira de sua salvação eterna.

É sempre bom lembrar que na ceia do Senhor não temos a coisa em si, isto é, aquilo não é uma repetição do sacrifício de Cristo e aquele pão e aquele vinho não passaram por um suposto processo de transubstanciação para virarem realmente corpo e sangue de Cristo. Pensar assim seria negar a singularidade do sacrifício que foi feito uma vez para a remissão de pecados e ainda por cima criar objetos de culto, o pão-carne e o vinho-sangue, negando a eficácia da ressurreição de Cristo, cujo corpo agora está glorificado e jamais poderia voltar ao estado de morto em que estava na cruz.

O pão e o vinho são símbolos, mas não meros símbolos, pois representam algo precioso ao coração de qualquer crente. Tenho em casa fotos de meus pais, pelos quais tive sempre grande amor e consideração. Eles não estão mais comigo, mas suas fotos estão. Para qualquer estranho aquilo não passa de um pedaço de papel impregnado de substâncias que perpetuaram as nuances de luz e sombra. Mas para quem é da família, aquilo é muito mais que um papel, pelo significado que traz. Assim são os símbolos, o pão e o vinho, vistos pelos que creem, no momento da celebração da ceia do Senhor.

Também é bom ter em mente que a ceia não é um meio de fortificação da fé, recebimento de bênção ou fonte de cura. Participar da ceia neste espírito é perder de vista que estamos ali não para receber, mas para dar a Deus e ao Senhor Jesus o louvor que é devido por seu sacrifício. Muitos cristãos olham para a ceia apenas como mais uma oportunidade de receberem algo de Deus, como se fosse uma espécie de tônico fortificante ou canal de bênção. O cristão já está abençoado com toda a sorte de bençãos espirituais nos lugares celestiais e não é uma celebração que irá abençoá-lo mais. O Senhor pediu: "Fazei isto em memória de MIM". Ele não disse "Fazei isto em memória de vocês..." ou "para a bênção de vocês...". Participar da ceia pensando "no que vou ganhar com isso" é uma atitude egoísta e mesquinha, e está muito longe da atitude de reverência e dignidade que o Senhor espera.

por Mario Persona

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