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O pastor profetizou do coronavírus?



https://youtu.be/2tPKcTU_mwY

Você enviou um vídeo dizendo que em 2013 o pastor que aparece nele disse ter recebido uma revelação de Deus de que iria acontecer uma epidemia mundial. Tudo o que ele disse que aconteceria nessa epidemia, com hospitais de campanha, lojas fechadas, pessoas morrendo, covas coletivas, é o que está acontecendo agora, e aí você perguntou se aquilo foi mesmo uma profecia verdadeira.

Este tempo de quarentena da pandemia de coronavírus está parecendo para mim uma maratona de "Vale a pena ver de novo" ou do "Vídeo Show", de tanta gente que está tirando do baú alguma profetada antiga para me enviar e perguntar se ela está se cumprindo. Não está, mas os falsos profetas agradecem se você continuar compartilhando com todo mundo, pois talvez nem eles se lembrassem mais de terem profetizado aquilo. Afinal, eles fazem tantas falsas profecias que até para um falso profeta profissional fica difícil guardar todas na memória.

Aqui vão duas chaves para se entender essas coisas. Primeiro, entenda que as manifestações espirituais genuínas são dadas por Deus com um propósito utilitário, ou seja, se a suposta revelação não for útil para alguma coisa ela não é do Espírito. O apóstolo Paulo escreveu: "A manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil." (1 Co 12:7).

Segundo, quando uma pessoa começa a dizer muito "Deus me revelou...", "O Espírito Santo me disse...", "Eu recebi esta revelação...", me vem à mente as palavras de Jesus: "Quem fala de si mesmo busca a sua própria glória" (Jo 7:18). Fuja de gente que diz muito "Eu, Eu, Eu..." como se fosse a última bolacha do pacote. Está cheio de gente assim. Só de pregadores que dizem ser João Batista que voltou ou um profeta dos últimos dias tem um montão.

No começo do vídeo ele diz que vai distribuir sachês de óleo ungido e que as pessoas devem pegar diretamente de suas mãos. Depois devem ungir a si mesmas, seus parentes e suas casas para protegê-las daquela suposta epidemia. Se aquilo foi em 2013 e estamos em 2020, fico imaginando se a data de validade daquela unção já não teria expirado depois de sete anos. Muita gente já morreu no mundo inteiro nesse período, pois de 50 a 60 milhões de pessoas morrem todos os anos. Portanto ainda que esse "pastor" tivesse ungido a população do planeta, cerca de 350 milhões teriam morrido de qualquer maneira de outras causas e não do coronavírus.

Portanto esse aí é só mais um mitômano oportunista, jogando verde e torcendo para alguma tragédia corroborar com sua aposta. Se eu hoje disser que recebi uma revelação de qualquer coisa, a probabilidade de isso acontecer sempre existirá, a menos que minha revelação seja de algo impossível que ninguém nunca viu acontecer antes. Esta semana recebi outra mensagem de outro jovem decepcionado, porque o pastor de sua igreja profetizou um monte de bênçãos para sua vida e nenhuma delas aconteceu. Pobre rapaz, ainda não descobriu que o mundo religioso está cheio de mentirosos.

Epidemias acontecem com frequência. Desde a data do vídeo, 2013, já tivemos algumas epidemias, como ebola (2013-2016 e outra em 2018 que só terminou agora na África), H1N1 (2009-2010), (SARS 2002-2003), gripe aviária (2003-2004). Se voltarmos para o século 20, tivemos a AIDS de 1981 até hoje, que até hoje já matou mais de trinta milhões de pessoas. Tivemos também a Gripe de Hong Kong (1968-1970), a Gripe Asiática (1957-1958 com um milhão e cem mil mortos), e a recordista Gripe Espanhola (1918-1919 com 50 milhões de mortos).

Se esse pastor tivesse profetizado que nosso planeta seria invadido por alienígenas e hoje estivéssemos sendo comidos por reptilianos, então eu até diria que foi mais criativo. Mas epidemia? É como profetizar de guerras, terremotos, tsunamis, furacões, acidentes aéreos e marítimos etc. Ora, o Senhor advertiu seus discípulos para que não pensassem que coisas assim seriam o prenúncio de um fim próximo. Até mesmo quando ele avisou do que aconteceria no "princípio das dores", que é o período imediatamente posterior ao arrebatamento da Igreja, o remanescente judeu que se converterá nesse tempo deveria saber dos oportunistas que surgiriam querendo enganar:

"E Jesus, respondendo, disse-lhes: Acautelai-vos, que ninguém vos engane; porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos. E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim. Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares. Mas todas estas coisas são o princípio de dores." (Mt 24:4).

Quanto à descrição bastante real feita por esse falso profeta, de hospitais de campanha, comércio e escolas fechadas, exércitos nas ruas, enterros em covas coletivas e tudo mais, fica muito fácil saber de onde ele tirou tudo isso. Dois anos antes tinha sido lançado o filme "Contágio", com Matt Damon. Se não estava no Netflix na época, ao menos já tinha sido exibido nos cinemas e talvez até na TV.

Depois de assistir esse filme qualquer um pode trabalhar no FEMA, a Agência Federal de Gestão de Emergências dos Estados Unidos, porque fica especialista em adivinhar tudo o que acontece numa epidemia, como a que hoje estamos assistindo ao vivo. Alguém até perguntou se esta epidemia não teria sido planejada, porque os governos do mundo já sabiam até o que precisavam fazer, e eu respondi que todos os governos já têm planos de ação para epidemias iguais às cenas do filme.

Agora vamos considerar a questão da utilidade: Para que Deus teria revelado a esse suposto profeta uma epidemia que aconteceria sete anos mais tarde? Será que ele poderia fazer algo a respeito, além de distribuir seus sachês de azeite? Muito provavelmente aquilo era óleo de soja barato, que já deve ter sido lavados dos cabelos de seus seguidores mais de duas mil e quinhentas vezes, se tiverem tomado banho todos os dias.

Não, sua profetada não tinha qualquer utilidade, porque ninguém iria ficar amontoando comida e medicamentos por sete anos sem perder tudo antes que chegasse o coronavírus. E nenhum laboratório do mundo seria capaz de preparar uma vacina para um vírus que nem sequer conheciam. Ou seja, a profetada era totalmente inútil e só poderia servir, no caso de ocorrer uma coincidência, para exaltar o tal pastor. Aí seria a minha vez de profetizar que sua igreja iria crescer, as ofertas aumentarem, e ele ficar rico daquela experiência.

Geralmente essas profetadas estão mais no campo da adivinhação, porque elas não têm qualquer utilidade além de apavorar as pessoas e exaltar o adivinho. Não se esqueça de que na Lei dada a Moisés Deus condenava à morte os adivinhos: "Quando, pois, algum homem ou mulher em si tiver um espírito de necromancia ou espírito de adivinhação, certamente morrerá; serão apedrejados; o seu sangue será sobre eles." (Lv 20:27).

Enquanto esse aí adivinhou que uma epidemia seria iminente, outro deve ter adivinhado que aconteceria uma guerra, outro que teria um ataque terrorista, outro que um avião iria cair, outro apostou em terremoto, outro num dilúvio e por aí vai. Aí um dia acontece qualquer uma dessas coisas que sempre aconteceram desde que o mundo é mundo — exceto avião cair, evidentemente — e o cara fica famoso, consegue aumentar a receita da igreja e comprar carro novo.

Essas profetadas baseadas em prognósticos são muito usadas por golpistas, como o do famoso golpe da corrida de cavalos. Tendo em mãos uma lista de mil apostadores em cavalos, o golpista enviou mil cartas divididas em grupos de cem. Nas cartas ele dizia ter informações privilegiadas do próximo prêmio e sabia o resultado. Em cem cartas ele dizia que o vencedor seria o cavalo número 1, em cem cartas dizia que seria o número 2, e assim por diante até o décimo cavalo. Evidentemente cem apostadores ganharam se tiverem apostado na dica do misterioso adivinho.

Na corrida seguinte essas cem pessoas recebiam cartas do tipo "Eu não disse que sabia o resultado? Pois no próximo prêmio o cavalo que irá vencer será..." e aí ele dividia novamente o grupo, agora de dez em dez, dizendo para as primeiras dez pessoas que seria o cavalo número 1, para as outras dez que seria o cavalo número 2 e assim por diante. Mais uma vez um grupo, agora de dez pessoas, teria a certeza de que ele realmente era capaz de adivinhar os resultados, e não se esqueça de que os viciados em jogos de azar são também muito supersticiosos. Finalmente ele enviava dez cartas, e agora um dos destinatários recebia o resultado correto. Para este era a terceira vez que a sorte batia em sua porta.

Para o prêmio seguinte, geralmente um grande prêmio, o golpista literalmente batia na porta do sortudo querendo fazer uma sociedade e prometendo revelar o cavalo ganhador. Mas aí já seria uma aposta grande: o sortudo entraria com grande soma em dinheiro que entregava ao adivinho para ele fazer a aposta, e este entrava com seu conhecimento do resultado. Ora, como não confiar em alguém que sabe prever o futuro com tanta precisão e já deu tanto lucro? Até hoje a vítima está procurando onde foi parar o profeta com seu dinheiro.

por Mario Persona

Mario Persona é palestrante e consultor de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional (www.mariopersona.com.br). Não possui formação ou título eclesiástico e nem está ligado a alguma denominação religiosa, estando congregado desde 1981 somente ao Nome do Senhor Jesus. Esta mensagem originalmente não contém propaganda. Alguns sistemas de envio de email ou RSS costumam adicionar mensagens publicitárias que podem não expressar a opinião do autor.)

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Esclarecimentos: O conteúdo deste blog traz respostas a perguntas de correspondentes, portanto as afirmações feitas aqui podem não se aplicar a outras pessoas e situações. Algumas respostas foram construídas a partir da reunião das dúvidas de mais de um correspondente. O objetivo é apenas mostrar o que a Bíblia diz a respeito das questões levantadas, e não sugerir qualquer ingerência de cristãos na política e na sociedade, no sentido de exigir que as pessoas sigam os preceitos bíblicos. O autor é favorável à livre expressão e, ainda que seu entendimento da Bíblia possa conflitar com a opinião de alguns, defende o respeito às pessoas de diferentes crenças e estilos de vida. Aqui são discutidas ideias e julgadas doutrinas, não pessoas. A opção "Comentários" foi desligada, não por causa das opiniões contrárias, mas de opiniões que pareciam favoráveis mas que tinham o objetivo ofender pessoas ou fazer propaganda de alguma igreja ou religião, induzindo os leitores ao erro.

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