As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.

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A igreja nao evangeliza?



https://youtu.be/HJqXT2DfXSQ

Sua dúvida tem a ver com a comissão dada aos apóstolos em Marcos 16:15-16: "E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado".


Esta ordem foi primeiramente dada aos apóstolos ainda em seu caráter de judeus pregando as boas novas do Reino e deve ser lida no contexto de Mateus 24:14 "E este evangelho do reino será pregado no mundo inteiro, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim."

O evangelho do Reino tinha o caráter do anúncio feito por João Batista: "Arrependei-vos que é chegado o reino de Deus" e voltará a ser pregado após o arrebatamento da igreja, quando um remanescente judeu fiel se converter nos sete anos que precederão a volta de Cristo para reinar.

Neste sentido, os apóstolos tiveram pouco tempo para obedecer àquele "Ide por todo o mundo", considerando que após a morte e ressurreição de Jesus eles passaram a pregar o evangelho da graça, cuja mensagem é: "Crê no Senhor Jesus e serás salvo". O remanescente judeu fiel, este sim, irá pregar o evangelho do reino por todo o mundo para todas as nações antes do fim.

O evangelho da graça, por sua vez, não será pregado em todo o mundo como é o caso da ordem dada quanto ao evangelho do Reino. A igreja será arrebatada antes que o mundo todo escute o "crê no Senhor Jesus e serás salvo", ficando a cargo dos judeus convertidos dar continuidade ao trabalho de anunciarem a Jesus a todo o mundo, porém num caráter muito mais associado ao trabalho dos apóstolos judeus de antes da fundação da igreja em Atos 2.

Você pode ler mais sobre essa distinção aqui:
http://www.respondi.com.br/2005/07/o-evangelho-ser-pregado-em-todo-o.html
http://www.respondi.com.br/2005/06/o-que-o-evangelho-do-reino.html

Tudo isso leva ao cerne de sua dúvida: Qual é o papel da Igreja no evangelismo? Na verdade estamos tão acostumados a ver as denominações como "obras evangelísticas" que nem nos damos conta de que os primeiros cristãos, quando se reuniam como assembléia ou igreja, não se reuniam para pregar o evangelho aos incrédulos, mas "perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações". Outra tradução diz: "E perseveravam no ensino e comunhão dos apóstolos, no partir do pão e nas orações" (J.N.D.) At 2:42

Portanto, a atividade de pregar o evangelho não é da assembléia ou igreja, mas do evangelista, muito embora todas as coisas estejam conectadas. Não haveria igreja se não existissem aqueles que saem para pregar aos incrédulos. E estes não sairiam se o próprio Jesus não tivesse distribuído os dons visando a edificação da igreja:

Ef 4:11 "E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo".

Primeiro vêm os apóstolos e profetas (do Novo Testamento) que tiveram a missão de lançar os alicerces ou fundamentos da Igreja, sendo Cristo a pedra angular. Estes já não existem em nossos dias, pois o alicerce já foi lançado. Falo sobre este assunto aqui: http://www.respondi.com.br/2007/01/como-saber-se-um-apstolo-genuno.html

Então vemos os outros três dons, dentre eles o de evangelista. Deu para perceber que o evangelismo não é um trabalho corporativo, ou seja, da igreja ou assembléia como se fosse uma organização evangelística? O evangelismo é uma tarefa do dom de evangelista, algo que Cristo dá a indivíduos, não a uma coletividade ou corporação. Veja a ordem das coisas e o exercício desses dons nesta passagem:

At 11:19-21 "Aqueles, pois, que foram dispersos pela tribulação suscitada por causa de Estêvão, passaram até a Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus. Havia, porém, entre eles alguns cíprios e cirenenses, os quais, entrando em Antioquia, falaram também aos gregos, anunciando o Senhor Jesus. E a mão do Senhor era com eles, e grande número creu e se converteu ao Senhor".

Aqui você vê o trabalho dos evangelistas, que é ir anunciar o evangelho para as pessoas se converterem ao Senhor, não a alguma religião, denominação ou mesmo a um grupo de irmãos. A área de atuação do evangelista é o mundo, não os irmãos em Cristo.

At 11:22-24 "Chegou a notícia destas coisas aos ouvidos da igreja em Jerusalém; e enviaram Barnabé a Antioquia; o qual, quando chegou e viu a graça de Deus, se alegrou, e exortava a todos a perseverarem no Senhor com firmeza de coração; porque era homem de bem, e cheio do Espírito Santo e de fé. E muita gente se uniu ao Senhor".

Agora é a vez do pastor. Cabe a ele cuidar e pastorear as ovelhas, alimentá-las de leite, exortá-las a perseverar no Senhor, ajudá-las a se unirem ao Senhor. O pastor ajuda a manter as ovelhas juntas em torno de Cristo, o verdadeiro Pastor. Agora sim vemos uma assembléia se formando em Antioquia.

At 11:25-26 "Partiu, pois, Barnabé para Tarso, em busca de Saulo; e tendo-o achado, o levou para Antioquia. E durante um ano inteiro reuniram-se naquela igreja e instruíram muita gente; e em Antioquia os discípulos pela primeira vez foram chamados cristãos".

Vem agora o trabalho do mestre ou doutor, exercido aqui por Paulo, que é o de ensinar e edificar os irmãos. Barnabé reconhece a limitação de seu dom (pastor) e sai em busca da ajuda de outro dom (Paulo, mestre ou doutor), embora o plural indique que Barnabé também participa do ensino naquela assembléia.

Lembre-se de que quando falo pastor aqui não estou me referindo ao cargo ou profissão que a cristandade inventou com esse nome, geralmente um homem colocado à frente de uma congregação para pregar o evangelho, pastorear e cuidar das ovelhas, e ensinar doutrina, como se tivesse ele próprio todos os dons de evangelista, pastor e mestre.

No trecho acima de Atos 11 vimos uma iniciativa individual dos evangelistas em levar as boas novas, o reconhecimento de uma assembléia (Jerusalém) de que havia irmãos necessitados de um pastor em Antioquia (daí Barnabé é enviado com esta missão) e finalmente os próprios irmãos em Antioquia revelando sua necessidade de conhecer mais e outro irmão, Paulo, indo em seu socorro.

É assim que as coisas funcionam. Aqueles que pregam o evangelho saem pregando sem consultarem ou serem enviados por alguma junta de homens, organização ou "igreja". Muito embora eles possam receber o apoio, encorajamento e até auxílio material dos irmãos, é do próprio Senhor, que lhes deu o dom de evangelista, que recebem sua comissão. Na volta eles trazem as alegres novas dos que se converteram e que agora serão congregados pelo Espírito ao nome de Jesus. Veja o que escreveu J. N. Darby a respeito:

"Um evangelista é servo de Cristo, não da assembléia; mas onde quer que ele esteja, ele pertence à igreja. Se não existir uma assembléia reunida onde ele está, então ele está ali só, mas se existir uma assembléia ele faz parte dela. E a primeira coisa que ele deve considerar é estar congregado para Cristo. Digamos que eu vá para a Galácia e o Senhor converta cinquenta pessoas. Eles estão congregados a Cristo, não à assembléia da qual eu vim. Um evangelista serve para a edificação do corpo de Cristo, no sentido de que ele traz as almas e as adiciona. Como você poderia formar uma igreja sem pessoas, sem tijolos (ou, devo dizer no sentido das escrituras, sem "pedras"?). Todavia, a este respeito devo tomar o máximo cuidado com duas coisas: de uma pessoa se separar em espírito dos santos, ou de uma assembléia pensar que a obra dessa pessoa é da assembléia. Creio ser de grande importância que o obreiro deva ser claramente servo de Cristo; mas se o seu trabalho for feito no espírito de separação dos santos, não posso estar de acordo. Um evangelista não necessariamente congrega pessoas a alguma coisa além de Cristo; pessoas com um pleno conhecimento de sua redenção. Se não tiverem a Cristo e um pleno conhecimento da redenção, elas não poderiam progredir de outra maneira". J. N. D.

Outro comentário que encontrei é de outro irmão também do século 19 congregado ao nome do Senhor (só encontrei suas as iniciais H. P. B.), dando sua opinião sobre uma assembléia que estava querendo promover uma reunião regular com um dos que pregava o evangelho para que ele apresentasse de antemão seus planos e depois os resultados de seu trabalho:

"Isso deixaria de considerar muito daquilo que o evangelista é chamado a fazer. Será que Filipe, por exemplo, teria informado de antemão os irmãos de Samaria de que iria fazer sua jornada em um lugar deserto? Todavia, uma objeção ainda mais séria a uma idéia assim está no fato de que, se um evangelista criar o hábito de apresentar de antemão sua obra aos seus irmãos, é certo que haverá diversidade de opiniões e um zelo vindo de uma variedade de sugestões. Acaso, quando isto acontece, não são justamente aqueles com a menor experiência no trabalho de ganhar almas os que mais impõem o modo como eles acham que as coisas devem ser feitas? Dificilmente o evangelista deixaria de ser influenciado e talvez até mesmo limitado por essas opiniões e conselhos, e não é difícil enxergar os tristes resultados de um plano como esse" H. P. B. - 1898

Dentro das denominações a obra do evangelho é vista como uma atividade da "igreja" como um todo, não apenas do evangelista, e daí a confusão. Então surgem aqueles apelos de que a igreja precisa ganhar almas para Cristo, no qual está subentendido que não é apenas um trabalho da denominação, como também tem o objetivo de angariar mais membros para a denominação.

Na verdade, a grande maioria dos chamados "cultos" cristãos (tirando os mercadores da fé e fazedores de milagres da TV) são na realidade pregações do evangelho. Dia após dia os que frequentam aquela "igreja" são convidados a virem à frente aceitar a Cristo. Depois são enviados relatórios à sede dando conta de quantos novos "membros" foram acrescentados.

Eu mesmo já vi um evangelista fazer um convite para uma população carente com as palavras: "Quem quiser aceitar a Cristo venha a frente para sair na fotografia". Obviamente todo mundo queria sair na foto e o relatório que o "evangelista" enviou à sede teve números bastante expressivos de "conversões". Como em algumas denominações esses obreiros ganham pontos ou prestígio pelo número de novos membros que conquistam, não é difícil imaginar que alguém vá inventar conversões para obter benefícios.

Eu me lembro de quando me congregava com os irmãos de uma pequena congregação denominacional no início de minha vida de convertido. Éramos menos de dez pessoas e não havia um "pastor" da denominação, mas as pregações eram feitas por um irmão "leigo". Quando cheguei passei a ajudá-lo. Nosso objetivo era sempre o de trazer pessoas para os "cultos" e a mensagem era sempre evangelística.

Lembro-me de uma noite quando não apareceu nenhum incrédulo e ficamos sem saber o que fazer. Não tínhamos idéia de que o evangelismo não é uma atividade da igreja como um todo, mas dos evangelistas, e muito menos de que os cristãos se congregam para Cristo, não para os incrédulos. A atividade normal da assembléia é a adoração na ceia do Senhor, a oração e a ocupação com a doutrina dos apóstolos, conforme vimos em Atos 2.

Creio que sua dificuldade está nas idéias que você trouxe das denominações e que criam essa confusão toda. Portanto, se você sente de Deus o chamado para pregar o evangelho, vá em frente e pregue. As pessoas que se converterem serão exortadas a se congregarem para o Senhor e ao Seu nome somente, e farão isso na assembléia mais próxima.

Mas tenha sempre em mente que a pregação do evangelho não é o anúncio de um lugar para as pessoas se reunirem; não é uma pregação de uma comunidade de irmãos, ou de um grupo no qual elas se sentirão incluídas. Pregar o evangelho é anunciar a Cristo e Sua obra na cruz. Não é anunciar a cura do corpo ou a libertação das dívidas, mas é mostrar o poder do sangue derramado na cruz para nos purificar de todos os nossos pecados. Um evangelho sem sangue não é o puro evangelho da graça de Deus, pois "sem derramamento de sangue não há remissão" Hb 9:22. No momento em que uma pessoa crê no Salvador ela já passa a fazer parte do Corpo de Cristo que é a igreja, independente se irá se congregar ou não em algum lugar.

Ela não precisará ser batizada por um determinado grupo para fazer parte do corpo de Cristo. Ela também não precisará ser "rebatizada" se já tiver sido batizada em nome de Jesus (isto é, com a delegação que veio dele ou "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo"), e nem precisará começar a se congregar ou a participar da ceia do Senhor para ser um membro do corpo. É por ser membro do corpo de Cristo que ela pode desfrutar desse privilégio.

Lembre-se: cada pessoa salva por Cristo é acrescentada por Ele à Igreja, que é o Seu corpo, não por um "pastor", um ritual ou uma carterinha de membro. E ela não é acrescentada a "uma igreja" ou à "igreja do pastor fulano", mas à "igreja de Deus, que ele adquiriu com seu próprio sangue" At 20:28. "E cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos", ou em outra tradução, "e todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar".

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