As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.
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Deus nao perdoa pecado?

Em nossa conversa você citou uma pregação de um irmão que teria dito que Deus não perdoa o pecado, e isso gerou dúvidas. Como você e eu bem sabemos são muitas as passagens que falam de pecados sendo perdoados por Deus, e o próprio Senhor Jesus, sendo Deus e Homem, perdoou pecados. Isso até gerou a ira dos religiosos judeus, que diziam, "Quem é este que diz blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão só Deus?" (Lc 5:21).

Você lembrou bem a oração do Pai Nosso ensinada por Jesus, onde diz, "perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores" (Mt 6:12). Sabemos que nesta versão dívidas significam pecados, e sabemos também que a oração foi ensinada a judeus antes da obra consumada de Cristo na cruz. Depois da obra consumada temos o que diz nestas duas passagens em Efésios 4:32 e Colossenses 3:13: "Sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo... assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também.".

Se na oração do Pai Nosso Jesus dizia para Deus nos perdoar quando perdoássemos os que pecaram contra nós, depois da obra consumada perdoamos porque Deus nos perdoou em Cristo, ou seja, por causa de um perdão já recebido. É por esta razão que não encontramos a partir de Atos um salvo pedindo perdão a Deus por seus pecados. Somos ensinados a confessá-los, mas sabendo que já temos o perdão garantido.

Também reconhecemos que essas passagens falam de perdão no sentido administrativo, já que mostram serem os homens também capazes de perdoar pecados, como um juiz tem autoridade para perdoar um réu durante um julgamento, ou a assembleia, que perdoa o irmão arrependido a fim de restabelecer sua comunhão à mesa do Senhor. Então com explicar a afirmação feita por um irmão de que Deus não perdoa o pecado? Na carta aos Romanos Paulo faz uma distinção entre a palavra "pecado", no singular, e "pecados" no plural.

Podemos pensar também no duplo aspecto da obra de Cristo: Primeiro, o pecado, no singular e como raiz de todos os pecados, foi julgado e condenado na cruz. Os pecados, no plural e sendo os frutos do pecado, foram levados por Cristo para serem lançados no esquecimento. Você se lembra dos bodes de Levítico 16? Um bode era morto e queimado, tipificando Cristo morrendo por causa do pecado; o pecado sendo julgado em um ser inocente. O outro bode tinha a mão do sacerdote sobre sua cabeça, o qual confessava os pecados do povo. Este bode não era morto, mas sim levado para o deserto, para um lugar de onde não pudesse voltar. É um tipo de Cristo levando nossos pecados.

Algumas religiões, como o Adventismo do Sétimo Dia, corrompem totalmente esse ensino ao dizerem que foi Satanás quem levou nossos pecados, fazendo com que a obra de Cristo teria sido insuficiente se não contasse com a ajuda do diabo. Mas a verdade é que ao morrer na cruz Jesus levou sobre si os pecados — no plural — daqueles que creram nele em todas as épocas, antes e depois de sua vinda. Os que viveram antes creram que Deus providenciaria um Cordeiro; os que viveram depois, que Deus já providenciou. Na cruz Jesus também tirou o pecado — no singular — do mundo, ou seja, restaurou os fundamentos da própria criação.

A morte de Jesus foi, primeiro, para resolver a questão do pecado no que diz respeito a Deus e, segundo, para resolver o problema do homem. Mesmo que ninguém fosse salvo, ainda assim a obra de Cristo teria tirado o pecado do mundo. Ela é a base eterna para os novos céus e a nova terra ainda futuros. Jesus já tirou o pecado do mundo e limpou os pecados dos pecadores que creem nele como Salvador, e apenas destes.

Um bom livro para se entender a distinção entre o pecado e os pecados é "Vida através da morte", de Charles Stanley, mas Bruce Anstey resume o assunto em seu livro "Definições Doutrinais":

Como regra nas epístolas do Novo Testamento, "pecados" (plural) referem-se às más ações que os homens fazem, e "pecado" (singular) é a natureza caída nos homens (a carne). Assim, "pecados" são ações más, enquanto "pecado" é a natureza má. O primeiro é o que fazemos, e o segundo é o que somos. Assim, "pecados" são manifestações do "pecado", ou "pecados" são o produto do "pecado", ou "pecados" são os frutos de uma árvore má e o "pecado" é a raiz dessa árvore má. O "pecado" é mais do que apenas a velha natureza do pecado; é aquela natureza má com uma vontade determinada a satisfazer suas concupiscências. Outra diferença entre essas duas coisas é que os "pecados" podem ser "perdoados" pela graça de Deus (Rm 4:7), mas o "pecado" não é perdoado, mas sim é "condenado" sob o justo julgamento de Deus (Rm 8:3). É importante prestar atenção a essa distinção ao ler as epístolas; se não o fizermos, iremos chegar a conclusões equivocadas. ["Definições Doutrinais", por Bruce Anstey].

Enquanto pesquisava um pouco mais sobre o assunto descobri um texto de John Nelso Darby que fala um pouco mais do assunto, e também afirma: "Deus condenou o pecado na carne. Ele perdoa pecados, mas a posição [o pecado] ele condenou, não perdoou.". O texto na íntegra é o que vem a seguir:

"Deus estava em Cristo" — Um comentário de 2 Coríntios 5 por John Nelson Darby.

Há dois grandes aspectos do evangelho neste capítulo: primeiro, aquele para o qual somos chamados e para o qual fomos feitos aptos; segundo, o testemunho que Deus deu do pecado em nós e da obra de Cristo que resolveu o problema. É bom apreender o que é o chamado de Deus, a fim de saber o que é necessário para participar dele. Não há reconciliação da coisa velha, tal como ela é, mas existe uma completa reconciliação no novo homem. O julgamento do homem é pronunciado: "Agora é o juízo deste mundo" (Jo 12:31). As tratativas de Deus com o homem na carne terminaram, a carne foi deixada de lado para sempre. No novo estado de coisas introduzido por Cristo em ressurreição "todas as coisas são de Deus" (2 Co 5:18).

Quanto ao corpo, ainda não chegamos a isso, e por esta razão "desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor" (2 Co 5:8). No momento em que nos apossamos de nosso chamado "para o seu reino e glória" (1 Ts 2:12) somos introduzidos na presença de Deus. Ele também está nos capacitando a apreender a glória. Repare que uma obra inteiramente de Deus deve ser feita para que o homem possa entrar na glória. Você poderia se colocar a si mesmo na glória de Cristo? "Quem para isto mesmo nos preparou foi Deus" (2 Co 5:5). A presença de Deus revelada à alma dá uma verdadeira e completa convicção de pecado. A pessoa já não se importa com o que o homem pensa, pois sabe o que Deus pensa.

O pecado é uma coisa vergonhosa, mas a presença de Deus produz pensamentos que estão além da vergonha. No momento em que a alma está diante de Deus, ela odeia e julga o pecado, não consegue pensar em escondê-lo, prefere estar na verdade diante de Deus — "há verdade no íntimo" (Sl 51:6). A vergonha do homem o leva à ocultação do pecado. A verdadeira luz de Deus manifesta tudo, mas quando o coração está alinhado com Deus ele fica do lado de Deus contra o pecado, e assim há perdão. Tudo fica bem quando olhamos para o que somos na presença de Deus. Somos chamados "para o seu reino e glória" (1 Ts 2:12) para sermos conformes à imagem de seu Filho. Temos uma vida, e a glória divina pertence a essa vida. É Deus quem justifica. Ele que está bem eu me enxergar assim, é o próprio Deus quem declara. É isso que eu quero, essa justificação completa e abençoada que se conecta com a glória — "...aos que justificou a estes também glorificou" (Rm 8:30). "Aguardamos a esperança da justiça" (Gl 5:5).

É assim que Deus nos chama em Cristo. Aquilo que é anunciado no evangelho é Cristo tal qual o homem é na glória divina. É o "evangelho... da glória de nosso Senhor Jesus Cristo" (2 Ts 2:14). A obra foi consumada para colocar o homem na glória de Deus. Essa coisa nova é o homem, o centro de toda a glória de Deus. Evidentemente isso será realizado oportunamente em Cristo, "de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra" (Ef 1:10) — ou como é apresentado em Apocalipse, "a glória de Deus a tem iluminado, e o Cordeiro é a sua lâmpada" (Ap 21:23). É para essa glória de Cristo que somos chamados; ela brilha na alma.

Você está apto para essa glória? Se não, para que você está apto? Você não pode ficar aqui na terra para sempre. Para onde vai? Se não estiver na luz, deve estar na escuridão, que é o oposto dela. Não há meio-termo. Temos isso na parábola do filho do rei — Jesus havia falado antes em buscar fruto, agora ele está falando da graça que não procura nada, mas oferece uma festa pronta. Aqueles que são convidados são os que estavam nas estradas e valados, e não importa o que eles eram antes, eles devem estar vestidos com a roupa nupcial. O pródigo deve ter o melhor manto para entrar na casa, ele deve estar adequado à casa. Você, meu leitor, entendeu isso? Vemos o que é esse chamado, mas será que você pode se perguntar: "Tenho eu o que é adequado à glória para a qual estou indo?"

Talvez você esteja entendendo que o Senhor está guiando você neste sentido, mas se não tiver isto, para quê está apto? Ou você está do lado de fora ou do lado de dentro e vestido com a veste nupcial. "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo" (2 Co 5:19). Acaso Jesus não se adequou a todos para conquistar seus corações? Ele veio trazendo o convite para os homens irem a Deus, mas não, eles não o queriam. Em troca de seu amor eles o odiaram, dando um terrível testemunho da completa ruína do homem. O ser humano está morto, apesar de estar vivo para si e para seus semelhantes, mas não há movimento de seu coração em direção a Deus. "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam" (Jo 1:11). No entanto, em Cristo você encontra perfeito amor, não reprovação. Paulo viu a terribilidade do julgamento e começou a persuadir os homens. O amor de Cristo ainda está pressionando os homens à verdade de que estamos mortos, de que a conexão entre o homem e Deus está rompida e não pode ser restabelecida.

Será que a cruz anuncia que Cristo colocou o mundo em ordem? "Um morreu por todos", isso é amor indescritível, "logo todos morreram" (2 Co 5:14). Será que a sua alma já foi trazida à convicção de que "em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum"? Poderia você afirmar que se estivesse lá não teria condenado Cristo à morte? Poderia você dizer que ele não morreu por você, para lhe ajudar e purificar? Se não, então você deve dizer: "Estou morto, perdido, não tenho ligação no coração com Deus!".

A velha criação é uma coisa julgada e condenada; você, assim como todos filhos de Adão, pertence a ela. A questão é se você foi tirado dela. O homem emancipou-se de Deus; o que a infidelidade faz é justificar e proclamar este fato, estabelecer e cultivar a vontade do homem. Caim começou este mundo sem Deus. Ele foi e construiu uma cidade e a chamou pelo nome de seu filho. Eles tinham instrumentos de música e artífices ali — tudo para tornar o mundo um lugar agradável sem Deus. E é isso que o homem está fazendo até hoje, e se justifica dizendo que faz isso com as faculdades que Deus lhe deu, e é verdade. Mas qual é o estado moral do coração do homem? Acaso ele não está longe de Deus? Jesus "veio buscar e salvar o que se havia perdido" (Lc 19:10).

Não estou perguntando se você se reconhece como perverso, mas se você se vê como perdido, morto! Por natureza rejeitamos a Cristo, todos os nossos pensamentos se agrupam em torno de nós mesmos. Ao invés de preferirmos a Cristo, preferimos o prazer, tudo o que há no mundo e nossa própria vontade. Esta é a condição de todos, naturalmente, e esta era a condição de cada um de nós, exceto daquele que não estava morto, daquele que era aceitável a Deus, o único que poderia ser, e que foi feito pecado por nós: Jesus. Ele ficou em nosso lugar. Ele, o santo abençoado, foi feito pecado. O poder vivificante de Deus nos mostra o pecado, mas vemos a coisa toda resolvida na cruz. Enxergo o que é a carne — ela crucificou a Cristo —, mas não estou mais nela, pertenço à nova criação. Estou em Cristo, que é a minha justiça, e me dá o direito de acesso. Encontramos o chamado para o reino e a glória de Deus. Vemos o véu rasgado, e Cristo do lado de dentro como Homem, e ao chegar lá, ele eliminou tudo o que éramos na carne. Temos que lidar com a carne diariamente como quem lida com um inimigo, mas quanto à nossa posição diante de Deus ela está resolvida. Em Cristo já entramos nesse novo lugar — "agora contudo vos reconciliou" (Cl 1:21); não existe mais nada entre mim e Deus. Somos introduzidos na glória de Deus. É certo que ainda aguardamos por isso em nossos corpos, e ele nos deu o penhor do Espírito.

Temos a reconciliação, mas reconciliação com quê? Com Deus. Cristo fez isso em conformidade com o que Deus é, e devemos julgar o pecado de acordo com o que Deus é. Quando obtemos o conhecimento disso? Agora, pela fé. Mas é algo que não podemos receber até que julguemos que trevas são trevas. Deus diz: "Onde está meu filho?" O mundo deve se declarar culpado de sua morte, pois não viu beleza em Cristo e agora prefere prazer, roupas, dinheiro, ciência, qualquer coisa ao invés de Cristo. Eu posso ainda ter que aprender muito, passar por muitos conflitos, mas se eu pertenço a Cristo estou reconciliado com Deus. "O amor de Cristo nos constrange" (2 Co 5:14) — este é o fundamento de todo o nosso caminhar.

Você pode ter vivido para si mesmo, ainda que muito decentemente, sem praticar o que o mundo chama de grandes pecados, mas há muitos inimigos decentes de Deus, e será que sua reputação valerá alguma coisa no dia do juízo? Um cristão pode não viver para si mesmo em propósito, mas será que você não estaria vivendo para si mesmo na prática? Você pode dizer que está ocupado com coisas inocentes, mas nada pode ser inocente longe de Deus. Você já julgou a si mesmo como pertencente a um mundo que rejeitou a Cristo? Temos de detalhar isso: a carne está continuamente se mostrando de formas inesperadas, todavia Deus condenou o pecado na carne. Ele perdoa pecados, mas a posição [o pecado] ele condenou, não perdoou. Você o conheceu, ele se fez pecado e fez de você justiça de Deus nele. Será que você pode afirmar: "Estou reconciliado com Deus, fui levado de volta para ele"?. Será que pode dizer. "Estou feliz por saber tudo sobre o meu pecado, 'sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos'"? (Sl 139:23). [traduzido de "God was in Christ" — 2 Corinthians 5 — J. N. Darby]

por Mario Persona

Mario Persona é palestrante e consultor de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional (www.mariopersona.com.br). Não possui formação ou título eclesiástico e nem está ligado a alguma denominação religiosa, estando congregado desde 1981 somente ao Nome do Senhor Jesus. Esta mensagem originalmente não contém propaganda. Alguns sistemas de envio de email ou RSS costumam adicionar mensagens publicitárias que podem não expressar a opinião do autor.)

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