As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.
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Podemos ganhar almas?



https://youtu.be/9kun-afs4iA

Muitas vezes temos dificuldades com certas palavras e expressões por elas terem mais de um significado, e este é o caso da expressão “ganhar almas”. Alguns podem achar que cabe ao homem converter pessoas, quando essa é uma obra de Deus do começo ao fim. Mas se o Senhor envia os evangelistas pelo mundo para pregar o evangelho isso tem por objetivo de conquistar almas para Cristo, aqueles que são convertidos pela Palavra de Deus aplicada pelo Espírito Santo. Um cristão saberá que não está nele o poder de convencer e converter uma alma, portanto ainda que fale em "ganhar almas" irá entender a que se refere.

Mas a dificuldade existe mesmo assim, e às vezes queremos ser puristas no uso de palavras, só que isso pode dificultar o entendimento do que queremos expressar. Por exemplo, se eu digo que o prefeito levou o asfalto a todas as ruas da cidade ninguém iria achar que el carregou asfalto nas costas,  e sim que providenciou o asfaltamento. O entendimento das expressões tem também a ver com o contexto, cultura e lugar. Se eu disser que adoro um porco, qualquer brasileiro irá saber que eu gosto muito de comer a carne do animal, ou talvez até que seja criador de suínos e gosto deles porque dão dinheiro. Mas ninguém acharia que me prostro diante de um porco em adoração. Mas dizer na Índia que você adora uma vaca e as pessoas entenderão que você é sim um adorador de vacas.

A expressão “ganhar almas” poderia muito bem se entendida no contexto de vendas. Trabalhei numa empresa de software, e quando saía para visitar clientes em potencial e vender nossos sistemas eu não levava o software, pois ele seria depois desenvolvido segundo as necessidades do cliente. Quando voltava à minha empresa eu podia dizer que ganhei um cliente, mesmo que não tivesse vendido nada tangível para ele e nem recebido qualquer valor. Um colega entenderia perfeitamente o que eu estava querendo dizer, mesmo aqueles que iriam desenvolver o software. Nenhum deles iria achar que o mérito era só meu, já que seriam os analistas e programadores os responsáveis por transformar aquela venda em realidade. Mas para efeitos de comunicação dizer que ganhei um cliente era suficiente.

Podemos entender mal a Palavra de Deus, pois ela usa uma mesma forma de expressão para dizer coisas diferentes. Por exemplo, estaria correto dizer que os judeus o mataram no contexto de cair sobre eles a responsabilidade pela morte: "A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos... E matastes o Príncipe da vida, ao qual Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas... O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, ao qual vós matastes, suspendendo-o no madeiro... Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu." (At 2:23; 3:15; 5:30; Tg 5:6).

Mas, por outro lado, sabemos que ninguém poderia tirar a vida de Jesus, pois ele mesmo disse isso: "Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas...  Por isto o Pai me ama, porque dou a minha vida para tornar a tomá-la. Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai." (Jo 10:15, 17-18). Então dizer que Jesus deu a vida e dizer que foram os judeus que a tiraram está certo nos dois casos, pois afinal foram os judeus os responsáveis por sua condenação à morte.

E se prestou atenção nestas passagens verá que ele também diz que a ressurreição seria algo que faria de si mesmo, pois tinha poder para tomar sua vida de volta. No entanto em Gálatas 1:1 diz que "Deus Pai... o ressuscitou dentre os mortos" e em Romanos 8:11 que foi "o Espírito... que dentre os mortos ressuscitou a Jesus" ao mesmo tempo em que nas passagens que citei o mesmo Senhor, que desafiou os judeus a derrubarem "este templo", falando de seu corpo: "Derribai este templo, e em três dias o levantarei.". Isto só para mostrar que uma mesma expressão pode ter diferentes significados dependendo do contexto.

Quando falamos dos dons que Cristo deu aos homens, entendemos que o evangelista evangeliza, o pastor pastoreia e o mestre ensina. Mas um bom entendedor saberia que o poder de convencer e converter não vem do evangelista, que o consolo e cuidado não vem do pastor, e a capacidade de o outro entender não vem da habilidade do mestre, mas da ação do Espírito Santo neste e nos outros casos.

É inegável que o Senhor deseja que os evangelistas tenham sua participação no ato de “ganhar almas”, caso contrário ele teria escrito a mensagem do evangelho nas nuvens para ninguém precisar sair pelo mundo levando as boas novas de salvação. John Nelson Darby usa o termo “ganhar almas” em diferentes textos e vai além, ao mostrar que esse trabalho nem mesmo é da igreja ou assembleia, mas daquele que possui o dom dado por Cristo. Em um comentário sobre a Carta aos Efésios ele escreve:

Aos servos é dito em Lucas 14:23: "Sai pelos caminhos e valados, e força-os a entrar". O cerne da questão era que, quando os judeus não entrassem, o Senhor teria ainda os gentios. Ele primeiro foi e tomou os pobres judeus, os pobres do rebanho, e os trouxe para sua casa, mas eles não a encheram, e então ele envia os servos aos gentios. Ele não diz nada acerca de quem ele envia. Mas eu não acho que você jamais ensinará alguém a ser um bom evangelista; ele deve receber isso de Deus. Ele deve ter o amor pelas almas em seu coração. Se ele depender do Senhor, irá ganhar almas. 

Você não pode ter a igreja sem o evangelista. Da perspectiva do evangelista, o ponto de partida dele é a igreja porque ele é um membro. Quando as coisas estavam em ordem, o poder emanava do centro e se concentrava naquele centro. "Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos." (At 2:47). Todos os dons são independentes da igreja; eles são todos dependentes de Cristo. Todo serviço é simplesmente para Cristo. Eu certamente admito a disciplina. Se um homem ensina errado, ele deve ser disciplinado; mas o serviço é para Cristo. Eles são todos para o Senhor, e creio que o Senhor os acrescentaria à igreja se as coisas estivessem em ordem. A igreja é aquilo que é formado na terra em que o Senhor deve ser glorificado. É onde ele se glorifica agora no mundo e, para isso, o evangelista junta as pessoas.

Tudo isso é bem verdade; mas quando você toma a pessoa de um evangelista ou pastor, ele é servo de Cristo. Ele será muito mais feliz se sair a evangelizar em comunhão com a assembleia, mas o fato de evangelizar não é um ato da assembleia. A assembleia não continuará bem, a menos que haja um espírito de evangelização, ao qual o amor de Cristo os constrangerá. Eu admito que muito do que aconteceu em conexão com os avivamentos, a ação que converteu e a que reuniu, estiveram em certa medida desconectadas. Vejo claramente nas operações no começo que elas eram juntas. “Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.” (At 2:47). Essa era a ordem regular das coisas. ("Substance of a Reading on Ephesians", J. N. Darby).

Em outro artigo, escrito por John Wilson Smith (1842-1922),  o autor vai direto ao ponto de como ganhar almas ao escrever ao editor de uma publicação chamada “Scripture Truth”. O artigo tem o título “Como ganhar almas” e aparentemente visava comentar uma mensagem enviada por um dos leitores.

“Como ganhar almas”
Aos editores da Scripture Truth.

O leitor de sua publicação levanta uma questão muito interessante, a saber, “Quais são os melhores meios para se alcançar almas no evangelho". O termo "alcançar" pode não ser o melhor em relação ao assunto, mas sua ideia é, evidentemente, a de ganhar ou conquistar almas. Paulo escreve sobre ter uma “reta medida... para chegarmos até vós. Porque não nos estendemos além do que convém, como se não houvéssemos de chegar até vós, pois já chegamos também até vós no evangelho de Cristo” (veja 2 Co 10:13-15). Mas "chegarmos" e "estendermos" aí é claramente figurativo. 

Ele usa a palavra "ganhar" muito mais diretamente, por exemplo em 1 Coríntios 9:18-22: “Logo, que prêmio tenho? Que, evangelizando, proponha de graça o evangelho de Cristo para não abusar do meu poder no evangelho. Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais. E fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei. Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns." (1 Coríntios 9: 18-22).

Aqui, "ganhar" e "salvar" são equivalentes — ganhar é salvar; e, sem dúvida, salvar almas foi a melhor das intenções de seu correspondente. Posso perguntar se os versículos que citei são suficientes para uma resposta? Enquanto os copiava, senti o quão perscrutadora é a verdade que eles contêm. O primeiro a ser "alcançado" deve ser o próprio pregador! Foi isso que Paulo experimentou e então ele agiu. Não é suficiente, portanto, reunir uma audiência e proclamar o precioso evangelho com a maior sinceridade, apesar de este ser, sem dúvida, um modo de se alcançar as almas e, de fato, a maneira usual pela qual a semente é semeada.

Mas deve existir, da parte do servo de Cristo, uma total negação de si mesmo e de suas predileções naturais, juntamente com uma espécie de afinidade moral — a compaixão e o não comprometimento da verdade — para com aqueles cuja salvação ele busca. Aqui está o teste para ele. Ele não deve se colocar em um pináculo de superioridade farisaica, nem dizer: "Prestem atenção, pois eu sou mais santo do que vocês". Ele deve se tornar servo de todos, para que possa ganhar ainda mais. Sua santidade não será comprometida ao fazê-lo. Para "ganhar" ele deve "ir"; para alcançar os outros, deve negar-se a si mesmo. Para ele, uma alma deve valer tudo. 

Todos nós começamos procurando ganhar uma alma, talvez um irmão como André em João 1:41, ou uma irmã ou uma companheira. Oramos primeiro por isso e, graças a Deus, os conquistamos — de uma maneira como dificilmente poderíamos detalhar, mas é o que acontece. Depois outro e mais outro, enquanto os corações se derramavam em gratidão a Deus. Nisso tudo Cristo foi tão precioso para nós que ansiamos que outros compartilhassem da mesma bênção. Ah! isso não foi uma manifestação natural — nunca, jamais! Era o belo fruto da compaixão divina; era o espírito de Cristo.

Escute isto: “Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas... não vai após a perdida até que venha a achá-la? E achando-a, a põe sobre os seus ombros, gostoso; e, chegando a casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida." (Lc 15:4-6).

Este é o melhor dentre os ganhadores de almas! Veja como ele buscou, às expensas de si próprio, e encontrou e levou para casa as pobres ovelhas perdidas, e a maneira como fez isso! Que exemplo para nós! Que possamos meditar nos anseios deste Bom Pastor e depois na devoção sincera de seu servo Paulo, e então enterrar nossas cabeças em um sentimento de vergonha e auto-humilhação. — “How to win souls”, por John Wilson Smith.

por Mario Persona

Mario Persona é palestrante e consultor de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional (www.mariopersona.com.br). Não possui formação ou título eclesiástico e nem está ligado a alguma denominação religiosa, estando congregado desde 1981 somente ao Nome do Senhor Jesus. Esta mensagem originalmente não contém propaganda. Alguns sistemas de envio de email ou RSS costumam adicionar mensagens publicitárias que podem não expressar a opinião do autor.)

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