As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.
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O que fizemos na incredulidade será trazido à tona?



https://youtu.be/4BSUl5W4ZLw

Você leu no livro "O tribunal de Cristo", de Bruce Anstey, que no julgamento das obras dos crentes para recompensá-los serão também trazidas à tona as obras de antes de sua conversão. Como pode ser isso se Deus disse que lançaria nossos pecados no esquecimento?

Sim, realmente em Hebreus 10:17 o Senhor diz que “jamais me lembrarei de seus pecados e de suas iniquidades”. Ele não diz "me esquecerei", e sim, "jamais me lembrarei". Esquecer é involuntário como quando alguém sofre de amnésia ou Alzheimer. Mas não se lembrar voluntário. Mas a passagem que gerou sua dúvida, e é comentada pelo autor do livro, está em 2 Coríntios 5:9-10: “É por isso que também nos esforçamos, quer presentes, quer ausentes, para lhe sermos agradáveis. Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito [obras] por meio do corpo.”.

O que você leu no livro foi que "As 'obras feitas por meio do corpo' incluiriam todas aquelas praticadas em nossa vida inteira, até mesmo antes de sermos salvos. Alguém questionou isto em uma reunião de leitura bíblica anos atrás, pensando que isso pudesse só envolver nossas vidas depois que fomos salvos. Mas o irmão Brown disse, 'Isso fala das obras 'feitas por meio do corpo.' Nós estávamos em nossos corpos antes de sermos salvos? Sim, nós estávamos.'".

Recapitulando, sabemos que aquele que já se converteu a Cristo não passará pelo chamado juízo final, que é o Grande Trono Branco de Apocalipse 20:11-15:

"E vi um grande trono branco, e o que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiu a terra e o céu; e não se achou lugar para eles. E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia; e foram julgados cada um segundo as suas obras. E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte. E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo." (Ap 20:11-15).

Se você aprendeu que no final todos serão julgados então aprendeu errado, apesar de ser este o ensino de muitas religiões ditas cristãs. Se você observar bem a passagem de Apocalipse irá reparar que ali não fala de ninguém sendo salvo, mas só dos que serão lançados eternamente no lago de fogo. O Senhor Jesus deixou bem claro isto: "Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida." (Jo 5:24).

O salvo por Cristo não entra em juízo, e nem poderia, já que seus pecados já foram todos pagos. Colocar um salvo diante do Grande Trono Branco é o mesmo que trazer de volta para comparecer diante do juiz alguém que cumpriu pena para ser novamente julgado. Ora, o Senhor cumpriu a pena em meu lugar quando morreu naquela cruz, pagou por meus pecados ali e me perdoou de todos eles quando eu cri nele como meu Salvador e Senhor. Como poderia eu ser julgado por um crime que ele já pagou? Aos olhos de Deus eu já sou ficha limpa.

O que causa confusão é o que o Senhor diz no mesmo capítulo 5 de João nos versículos 28 e 29, que parece indicar que a salvação será só para os que fizerem o bem, e por isso seria preciso o crente também passar pelo juízo final antes de saber se atingiu o nível de bondade requerido. "Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação.".

Ora, se sabemos que é pelo fruto que se conhece a árvore, iremos também entender que "os que fizeram o bem" nesta passagem são os que foram salvos e justificados pela fé em Jesus. Uma vez salvos, passaram a fazer as obras que Deus preparou para que andassem nelas. Acaso não foi isso que Paulo ensinou em sua carta aos Efésios? "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas." (Ef 2:8-10).

É preciso entender que entre a "ressurreição da vida", que vem primeiro, e a "ressurreição da condenação" na passagem de João 5:28-29, terão se passado no mínimo mil anos. Estas ressurreições não ocorrem simultaneamente. Se Deus estivesse esperando o dia do juízo final para dar aos salvos de todas as eras a certeza de sua salvação teríamos de considerar que Abel e tantos outros ao longo da história estariam hoje vivendo em um hades de incerteza, não estando sequer na companhia do Senhor, como Lázaro no seio de Abraão desfrutando agora mesmo de um gozo eterno enquanto aguardam pela ressurreição de seus corpos, mas separados disso pelo mesmo abismo que "o rico" via diante de si.

"Está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá." (Lc 16:26). Percebe que o rico e Lázaro já ocupam posições separadas e intransponíveis, mesmo antes da ressurreição? A cena se passa no agora, pois o rico ainda roga que Lázaro seja enviado ao mundo dos vivos, a seus irmãos, para avisá-los do que lhes espera. Fica bem claro que a ressurreição não havia ainda acontecido e Lázaro desfrutava da presença do Senhor em alma e espírito, mas não ainda em seu corpo de carne e ossos.

"Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento.  Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite." (Lc 16:27-31).

Se a salvação e posição dos que partiram na fé não estivesse já firme desde o dia em que creram, teríamos também de imaginar que o Senhor, depois de dizer ao malfeitor arrependido que naquele mesmo dia estaria com ele no Paraíso, voltaria depois a lhe dizer: "Ok, agora é melhor você se sentar e esperar o juízo final para ver se vai mesmo entrar no Paraíso". Se fosse apenas depois do juízo final que a sorte de cada um será definida, a cena da transfiguração no monte teria sido só com a participação de Jesus, já que Moisés e Elias ainda não teriam sido devidamente julgados para provar que eram idôneos para estarem ao lado do Senhor. E, ao invés de dizer que tinha o "desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor." (Fp 1:23), Paulo teria dito que tinha o "desejo de partir, e ser julgado por Cristo, porque isto é ainda muito melhor". Já pensou um criminoso feliz porque será levado a julgamento?

Mas então de que julgamento 2 Coríntios 5:9-10 está falando? Do "tribunal de Cristo", que é um julgamento das obras do crente, não da pessoa do crente. Se leu com atenção as passagens de Apocalipse 20 e de 2 Coríntios 5 terá observado um detalhe muito importante. Repare que em Apocalipse diz "e foram julgados cada um [cada pessoa] segundo as suas obras.". Isso é julgamento da pessoa, de "cada um" que já entra ali para receber sentença de condenação, e evidentemente o que produziu para nada servirá, pois "todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia" (Is 64:6). Se nossas justiças são como trapo de imundícia — no original "trapos de menstruação" ou absorventes higiênicos descartados, se quiser modernizar o termo —, o que dizer de nossas injustiças!

Mas o que diz a passagem que fala do tribunal de Cristo em 2 Coríntios 5:9-10 e deve ser lida em conjunto com 1 Coríntios 3:12-15? "E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo." (1 Co 3:12-15).

Consegue enxergar a diferença? No Grande Trono Branco a pessoa e suas obras, que a condenam, é julgada apenas para receber a sentença de condenação final, não a salvação. No tribunal de Cristo apenas as obras são julgadas, como faz o juiz num concurso de arte, para a pessoa receber ou não prêmio ou recompensa. Mas de qualquer maneira a pessoa ali já está salva, e mesmo que nada tiver restado de suas obras feitas aqui "o tal será salvo, todavia como pelo fogo", ou seja, sem galardão. Neste ponto se saberá se as obras que o crente praticou em vida foram realmente aquelas "as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas" (Ef 2:10), ou simplesmente boas obras de sua própria vontade e energia.

Digamos que eu deixe minha família para ir pregar aos perdidos de um outro país. Muito louvável, mas será que fui dirigido pelo Senhor ou pela carne? Muitos fizeram isso dirigidos pelo Senhor, outros podem ter feito por outros motivos, como buscar glória para si mesmos ou simplesmente porque eram empregados de alguma organização religiosa e faziam disso seu meio de vida. Não cabe a nós julgar seus motivos, mas no tribunal de Cristo o Senhor trará essas coisas à tona e irá prová-las com o fogo de seu olhar perscrutador como se prova o ouro ou a prata para separar suas impurezas. Então aqueles que talvez achávamos ser grande coisa nesta vida, por seus grandes feitos e exposição na mídia, poderão sair do tribunal de Cristo com uma mão na frente e outra atrás. Enquanto isso, irmãos e irmãs de quem nunca ouvimos falar e nunca ocuparam um púlpito ou apareceram na mídia serão recompensadas por sua vida de oração no secreto de seus quartos.

Eu confesso que também estranhei quando li o comentário no livro "O Tribunal de Cristo", dizendo que até as obras que praticamos antes de nossa conversão serão trazidas à luz porque feitas por meio do corpo que já possuíamos então. Até ali eu achava que apenas as obras que fizemos depois de salvos seriam trazidas à tona, mas lendo a passagem percebi que não há razão para querer entender diferente do que ela diz: "Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito [obras] por meio do corpo.” (2 Co 5:10). Por meio de meu corpo eu fiz muita coisa antes e depois de ter sido salvo, e o versículo não coloca distinção aí. Então é melhor acatarmos que é isso mesmo que ele diz.

Talvez nosso problema em entender isso tenha a ver com a vergonha do que fomos antes de nossa conversão, mas quando isso acontecer será algo privado e não público, e teremos uma mente renovada. Ninguém irá se envergonhar das coisas que fez como hoje nos envergonhamos ao mesmo tempo em que, vivendo na carne, estamos sempre propensos a voltar a fazê-las por meio do mesmo corpo que usamos para isso no passado. Ao contrário, cada um irá exaltar ainda mais a Cristo ao saber com maior precisão a profundidade do buraco de onde foi tirado.

Não teremos mais em nós essas coisas, pois apenas o que é de Cristo permanecerá eternamente. Todavia nossa memória, ainda que renovada, não será apagada, apenas enxergaremos essas coisas com outros olhos. Não seremos menos no céu do que somos agora, porém seremos perfeitos. Ninguém irá sofrer de uma total amnésia, pois se assim fosse nossa identidade desapareceria, como os que são encontrados vagando pelas ruas e a polícia precisa descobrir quem são, de onde vieram e para onde vão. Será que algum cristão perderia a consciência de que um dia foi salvo por Cristo porque antes disso era um pecador perdido? De modo algum, e as marcas sempre frescas nas mãos e em no lado do "Cordeiro como havendo sido morto" estarão ali eternamente para nos recordar. Eu me imagino naquele momento olhando para as coisas más que pratiquei "por meio do corpo" como alguém que, depois uma cirurgia, observa num vidro os tumores que foram tirados de seu corpo e diz: "Veja só, isto estava dentro de mim e o cirurgião extraiu; era meu, causava dores, causava problemas, incomodava, iria me levar à morte, mas agora pertence ao passado".

por Mario Persona

Mario Persona é palestrante e consultor de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional (www.mariopersona.com.br). Não possui formação ou título eclesiástico e nem está ligado a alguma denominação religiosa, estando congregado desde 1981 somente ao Nome do Senhor Jesus. Esta mensagem originalmente não contém propaganda. Alguns sistemas de envio de email ou RSS costumam adicionar mensagens publicitárias que podem não expressar a opinião do autor.)

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