As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.
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Deixar de me tratar e' pecado?



https://youtu.be/QETpWmDVyKE

Você pergunta se seria pecado deixar de buscar tratamento médico caso fosse diagnosticada com uma doença grave, para poder ir logo para a presença do Senhor. Paulo tinha o desejo de partir e estar com Cristo, mas também sabia que era importante continuar aqui por mais um tempo por causa dos irmãos. Ele não era egoísta querendo resolver apenas o seu problema.

No caso dele não havia diagnóstico de alguma doença incurável e mortal, mas as perseguições, prisões e torturas faziam com que estivesse ciente de que o Senhor poderia tirá-lo do mundo a qualquer momento, como acabou fazendo depois por decapitação, de acordo com a tradição cristã.

Entendo que o cristão deva buscar sempre que possível tratamento médico. Cuidar bem do corpo equivale a cuidar bem do templo do Espírito, e não deveríamos querer causar danos (ou deixar de fazer manutenção) a esse templo. Na prática existem muitas razões para alguém não buscar tratamento, como impossibilidade por falta de recursos, sofrimento causado por tratamentos que sabidamente serão incapazes de curar e outras, principalmente nestes tempos de avanços médicos.

Minha mãe foi diagnosticada com câncer e partiu para estar com o Senhor seis meses depois do diagnóstico. Mesmo assim ela buscou todos os tratamentos possíveis até ao ponto em que percebeu que eles estavam apenas prolongando seu sofrimento, pois já tinha em seu corpo a sentença de morte.

Um dia, enquanto eu ajudava a colocá-la numa maca no elevador para levá-la à ambulância que a levaria a uma sessão de radioterapia, ela decidiu parar com tudo e pediu que os enfermeiros a levassem de volta para a cama em seu apartamento. A quimioterapia e a radioterapia não estavam combatendo a doença, mas apenas fazendo seu sofrimento aumentar, além do consumo de morfina para a dor do câncer que já tinha se espalhado pelos ossos. Eu e minhas irmãs demos razão a ela.

Ela sobreviveu mais alguns dias tomando apenas medicamento para a dor, mas estava consolada, tranquila e segura de sua partida para estar com Cristo. Um dia ela apontou para a janela do quarto, de onde podia ver as nuvens do céu, e disse: "Meu filho, o Senhor virá dali para me buscar". Dois dias antes de partir deu instruções aos filhos de onde estavam documentos e outras coisas, pediu à minha irmã mais velha para abrir a porta do guarda-roupa em frente à sua cama e apontou para o vestido que gostaria de vestir em seu funeral.

Na véspera de sua partida liguei para meu cliente, que já tinha reservado hotel, bufê e organizado tudo para um treinamento de dois dias em São Paulo e expliquei minha situação. Fico feliz por ele ter compreendido e adiou o evento para o mês seguinte.

No dia de sua partida apareceram alguns pentecostais convidados por uma empregada de minha mãe que queriam a todo custo entrar no quarto para orar. Como eu já sabia que iriam promover gritaria, não permiti e eles não gostaram nem um pouco. Tentei explicar que ela estava morrendo e um deles ainda quis discutir comigo que Deus podia curar, que precisava ter fé e todo aquele discurso de quem não se conforma com o fato de que todos nós adoecemos e morremos quando chega a hora.

A insistência do rei Ezequias para Deus postergar sua morte, o que Deus acatou dando-lhe mais quinze anos de vida, só lhe trouxe desgraça. Você pode ler a história em 2 Reis 20. Nesse período de sobrevida Ezequias se exaltou das riquezas que Deus lhe havia dado e mostrou tudo para o inimigo, que anotou em sua agenda a invasão de Jerusalém, como o profeta Isaías havia previsto:

"Então o profeta Isaías veio ao rei Ezequias, e lhe disse: Que disseram aqueles homens, e de onde vieram a ti? Disse Ezequias: Vieram de um país muito remoto, de Babilônia.E disse ele: Que viram em tua casa? E disse Ezequias: Tudo quanto há em minha casa viram; coisa nenhuma há nos meus tesouros que eu não lhes mostrasse.Então disse Isaías a Ezequias: Ouve a palavra do Senhor. Eis que vêm dias em que tudo quanto houver em tua casa, e o que entesouraram teus pais até ao dia de hoje, será levado a Babilônia; não ficará coisa alguma, disse o Senhor. E ainda até de teus filhos, que procederem de ti, e que tu gerares, tomarão, para que sejam eunucos no paço do rei da Babilônia." (2 Rs 20:14-18).

Além disso, foi também nesse período de sobrevida do rei Ezequias teve um filho, Manassés, que viria a ser um rei tirano e cruel. Ele desfez todas as obras de Ezequias, que tinha sido zeloso em limpar o reino dos ídolos pagãos, e voltou a instituir a adoração a falsos deuses e demônios, chegando até a colocar um ídolo dentro do Templo de Deus em Jerusalém. Também sacrificou seu próprio filho a Moloque, o que felizmente Ezequias não viu acontecer com seu neto pois já tinha partido da terra.

Muitos cristãos pentecostais parecem não se conformar com o fato de que ainda vivemos em um corpo suscetível ao pecado, doença e morte, e acabam fazendo com que irmãos doentes em estado terminal se sintam culpados. Uma família que conheci em minha cidade perdeu o pai para o câncer, e como frequentavam uma igreja pentecostal foram perguntar à "pastora" a razão de ele ter morrido, apesar de todas as orações que ela fez por ele. A resposta da mulher foi: "Ele morreu porque não teve fé para ser curado". Se isso não for crueldade não sei o que é.

Diante da morte iminente de nossa mãe, eu e minhas irmãs combinamos de não fazer espetáculo no momento em que estivesse partindo. Ficamos todos ao redor de sua cama em silêncio, disfarçando os soluços para ela não escutar. Sempre nos lembrávamos da história que ela contava, de quando era adolescente ao lado do leito de morte de sua mãe, consumida pelo câncer ainda nova. Em um determinado momento sua mãe abriu os olhos e disse a ela: "Ruth, pare de orar! Eu quero partir!".

Choros, gritos, orações desesperadas e toda a arruaça que alguns costumam fazer ao lado do leito de um moribundo só prolonga seu sofrimento. É sabido que a pessoa tenta se apegar à vida usando as últimas gotas de energia em seu corpo, quando deveria estar descansada esperando o Senhor para levá-la ao Paraíso, como ele prometeu ao malfeitor arrependido: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso." (Lc 23:43). Você teria coragem de, naquele momento, dizer ao malfeitor: "Deixa disso, rapaz, Jesus não está falando sério, se esforce para viver até amanhã ou depois! Vou orar por você para que não morra!".

Quando minha mãe deu seu último suspiro, aguardamos passarem os espasmos de seu corpo, o que é normal acontecer após a morte pelo movimento involuntário dos músculos, e então meu cunhado abriu a Bíblia, leu um Salmo e orou, agradecendo por seus anos de vida e pela família que criou, pedindo também por consolo pelos que ficavam. Aí sim choramos à vontade.

Mas voltando à sua pergunta, "se seria pecado deixar de buscar tratamento médico caso fosse diagnosticada com uma doença grave, para poder ir logo para a presença do Senhor", me vem à lembrança um versículo de Tiago 4:17: "Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado.". Então a resposta depende de vários fatores, como você viu no caso de minha mãe. O melhor mesmo é ter a disposição dupla de Paulo, de querer ir para o Senhor, mas de querer ficar para o bem dos irmãos.

"Segundo a minha intensa expectação e esperança, de que em nada serei confundido; antes, com toda a confiança, Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte. Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho. Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher. Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor. Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne. E, tendo esta confiança, sei que ficarei, e permanecerei com todos vós para proveito vosso e gozo da fé, para que a vossa glória cresça por mim em Cristo Jesus, pela minha nova ida a vós." (Fp 1:20-26).

A medicina moderna criou áreas cinzentas em que ficamos sem saber o que dizer, pois hoje é possível manter um corpo funcionando mesmo depois da morte cerebral. Então caberá ao cristão orar a Deus buscando por sabedoria para saber até que ponte vale a pena se submeter a tratamentos agressivos que possam também causar danos a esse mesmo templo do qual devemos tratar bem.

Como diz o ditado, no momento em que "o molho fica mais caro que o peixe", ou seja, mantemos uma situação de dor, sofrimento e alto custo apenas para viver mais alguns meses, pode ser que estejamos sendo como Ezequias, quando se desesperou com a notícia de que o Senhor queria levá-lo.

"Naqueles dias adoeceu Ezequias mortalmente; e o profeta Isaías, filho de Amós, veio a ele e lhe disse: Assim diz o Senhor: Põe em ordem a tua casa, porque morrerás, e não viverás. Então virou o rosto para a parede, e orou ao Senhor, dizendo: Ah, Senhor! Suplico-te lembrar de que andei diante de ti em verdade, com o coração perfeito, e fiz o que era bom aos teus olhos. E chorou Ezequias muitíssimo. Sucedeu, pois, que, não havendo Isaías ainda saído do meio do pátio, veio a ele a palavra do Senhor dizendo: Volta, e dize a Ezequias, capitão do meu povo: Assim diz o Senhor, o Deus de Davi, teu pai: Ouvi a tua oração, e vi as tuas lágrimas; eis que eu te sararei; ao terceiro dia subirás à casa do Senhor.  E acrescentarei aos teus dias quinze anos, e das mãos do rei da Assíria te livrarei, a ti e a esta cidade; e ampararei esta cidade por amor de mim, e por amor de Davi, meu servo." (2 Rs 20:1-6).

É preciso também considerar que muitas vezes a família investe o que tem e o que não tem para prolongar artificialmente a vida de alguém que já foi salvo por Cristo e só deseja partir para estar com ele, ficando depois sem recursos para prover o necessário para os que ficaram. Talvez você me diga o ditado "Enquanto há vida, há esperança", que foi justamente a frase que aquele obreiro pentecostal me disse enquanto insistia em entrar no quarto de minha mãe para orar. Não se pode deixar de considerar que tudo o que acontece com cada um de nós não tem a ver só conosco, mas serve também de testemunho para as pessoas que nos cercam.

Portanto, do mesmo modo com uma cura que encontramos na Bíblia servia para dar testemunho do poder de Deus, uma não cura também poderá servir de testemunho. Quer alguns exemplos? Lázaro, que Jesus não foi curar quando estava doente;  o cego de nascença, que tinha vivido em trevas grande parte de sua vida, o apóstolo Paulo, que viveu durante anos tendo de suportar seu espinho na carne, Timóteo, que sofria de uma enfermidade do estômago para a qual Paulo não enviou sequer algum tipo de "lenço milagroso", mas mandou que tomasse vinho, Trófimo, que Paulo deixou doente em Mileto sem curá-lo, e mais uma vez Ezequias, que insistiu por mais tempo de vida e foi justamente isso o seu desastre.

Uma vez minha mãe disse a uma amiga enquanto falava a ela de Jesus: "Se a vida neste mundo fosse perfeita ninguém iria querer morar no céu".

por Mario Persona


Mario Persona é palestrante e consultor de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional (www.mariopersona.com.br). Não possui formação ou título eclesiástico e nem está ligado a alguma denominação religiosa, estando congregado desde 1981 somente ao Nome do Senhor Jesus. Esta mensagem originalmente não contém propaganda. Alguns sistemas de envio de email ou RSS costumam adicionar mensagens publicitárias que podem não expressar a opinião do autor.)

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