As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.
ATENÇÃO: POR FALTA DE TEMPO SÓ RESPONDEREI PERGUNTAS INÉDITAS. NÃO RESPONDO NO WHATSAPP.
PESQUISE assunto +mario persona NO GOOGLE PARA VER SE JÁ EXISTE RESPOSTA.

O que era o "espinho na carne" de Paulo?



https://youtu.be/QS-BCVIAaiA

Você disse ter chegado à conclusão de que o "espinho na carne" de Paulo seriam as perseguições que ele eventualmente sofria, mas eu creio que fosse algo que causasse uma aflição e incômodo continuamente. Era na carne, e não um agente externo eventual que atacasse sua carne. Acredito que poderia ser alguma doença ou deformidade, talvez nos olhos e que causasse repulsa.

Mas isto é apenas especulação, pois o importante é entender a lição ensinada por esse "espinho". Isso nos mostra que o conhecimento tem seu preço, e às vezes o Senhor permite tribulações na carne para não nos exaltarmos do que temos conhecido. "O saber ensoberbece", escreveu Paulo em 1 Coríntios 8:1.

Repare que o contexto todo da passagem tem a ver com a sublimidade das revelações que Paulo recebeu diretamente do Cristo glorificado, quando foi arrebatado ao Paraíso. Ele toma até o cuidado de escrever na terceira pessoa ("Conheço um homem...") para indicar modéstia no falar, evitando dizer "Eu fui arrebatado ao terceiro céu...". Ali ele ouviu "palavras inefáveis" ou "indizíveis" ou "secretas", conforme diferentes traduções. Dentre as coisas que ele pode ter recebido ali estão os vários mistérios que ele menciona em outras partes.

Até mesmo a revelação da ceia do Senhor Paulo não recebeu dos outros apóstolos, mas diretamente de Jesus: "Eu recebi do Senhor o que também vos ensinei" 1 Co 11:23). É com base na ordenança dada através do apóstolo para a Igreja que celebramos a ceia do Senhor, tomando do pão e do cálice. Quando o Senhor instituiu originalmente a ceia nos evangelhos ele o fez ainda antes de morrer, e dentro de um contexto ainda judaico. Aquela ceia foi celebrada em meio à ceia Pascal, que era uma celebração dos judeus comemorando sua saída do Egito.

Naquela ocasião a Igreja ainda não tinha sido formada, como seria mais tarde em Atos 2, mas mesmo quando de sua formação os outros apóstolos e discípulos ainda não entendiam o que realmente tinha acontecido. Talvez pensassem que aquilo tudo fazia parte de um avivamento do judaísmo. Por isso continuaram frequentando o Templo de Jerusalém, até Deus converter o apóstolo Paulo, revelar a ele a verdade da Igreja e permitir que os romanos destruíssem o Templo, que era o lugar físico de adoração dos judeus.

Na verdade foram ao menos nove revelações de mistérios que permaneceram ocultos até serem revelados a Paulo e que não conheceríamos se não existissem suas cartas às igrejas. Não sabemos quantas delas teriam sido reveladas em seu arrebatamento ("se no corpo, não sei, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe") ao "terceiro céu", também identificado como "Paraíso", ou depois daquela experiência.

1. O mistério do evangelho da graça de Deus (Rm 16:25-26)
2. O mistério do endurecimento de Israel por um tempo (Rm 11:25-27)
3. O mistério do arrebatamento e da ressurreição do corpo de Cristo (1 Co 15:51-53)
4. O mistério do um só corpo, a Igreja (Ef 3:1-9)
5. O mistério da cidadania ou vocação celestial do crente no corpo de Cristo (Ef 1:3; Fp 3:20-21)
6. O mistério do propósito de Deus de reunir todas as coisas em Cristo na dispensação da plenitude dos tempos (Ef 1:9-10)
7. O mistério da graça de Deus (Rm 6:14)
8. O mistério da identificação do crente com Cristo (1 Co 15:1-4)
9. O mistério da iniquidade (2 Ts 2:6-12)

Sem dúvida alguma receber tudo isso de primeira mão já seria motivo bastante para qualquer um se gloriar e se achar importante. Por isso é mais do que compreensível que Deus tenha colocado um freio dolorido nas pretensões que o apóstolo podia ter de se vangloriar, pois essas pretensões existem em toda carne humana. Leia cuidadosamente a passagem que fala do espinho em sua segunda epístola aos Coríntios:

"Em verdade que não convém gloriar-me; mas passarei às visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo, não sei, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao terceiro céu. E sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar. De alguém assim me gloriarei eu, mas de mim mesmo não me gloriarei, senão nas minhas fraquezas. Porque, se quiser gloriar-me, não serei néscio, porque direi a verdade; mas deixo isto, para que ninguém cuide de mim mais do que em mim vê ou de mim ouve. E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar. Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim. E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte. Fui néscio em gloriar-me; vós me constrangestes." (2 Co 12:1-11).

Percebe que tudo tem a ver com ele próprio,e não com algum tipo de ataque vindo de fora e de homens? O espinho foi "na carne", ou seja, em seu corpo natural e dado como algo permanente para que não se "exaltasse pela excelência das revelações". Ao mencionar o espinho como "um mensageiro de Satanás" logo vem à mente o sofrimento de Jó, ao qual Deus permitiu que Satanás afligisse, também atacando sua carne, ou seja, seu corpo e sua saúde. Mais de uma vez Paulo repete que o objetivo era impedir que ele se exaltasse, como se recebesse um tapa na cara cada vez que falasse de si mesmo e das revelações que recebeu de Cristo.

O que ele diz no final não é que esse espinho seriam as "injúrias, necessidades, perseguições", mas está apenas dizendo que, por ter aprendido que lhe bastava a graça do Senhor, podia enfrentar essas coisas tranquilamente, sabendo que "quando estou fraco". Isto é, mesmo quando injuriado, sofrendo necessidades e perseguições, ele podia se considerar forte. "De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo", explica ele, continuando com uma confissão de que tinha feito papel de tolo ao começar a falar de si por ter sido levado a isso pelos irmãos de Corinto. "Fui néscio em gloriar-me; vós me constrangestes.".

Quanto ao tipo de enfermidade ou deformidade, posso apenas conjecturar que poderia ser algo nos olhos. Repare o seu modo de falar em diferentes passagens de sua carta aos Gálatas, na qual a expressão "nem desprezastes isso que era uma tentação na minha carne" poderia significar que os Gálatas não teriam demonstrado repulsa por algum problema físico que ele apresentasse:

"E vós sabeis que primeiro vos anunciei o evangelho estando em fraqueza da carne; e não rejeitastes, nem desprezastes isso que era uma tentação na minha carne, antes me recebestes como um anjo de Deus, como Jesus Cristo mesmo. Qual é, logo, a vossa bem-aventurança? Porque vos dou testemunho de que, se possível fora, arrancaríeis os vossos olhos, e mos daríeis... Vede com que grandes letras vos escrevi por minha mão." (Gl 4:13-15; 6:11).

Aparentemente Paulo devia ditar suas cartas enquanto outro irmão escrevia, e eventualmente introduzir algo de próprio punho, como ele fez nessa carta aos Gálatas usando de letras grandes. Numa outra passagem no capítulo 23 de Atos vemos Paulo agindo de modo estranho para um ex-fariseu, que certamente saberia reconhecer o sumo sacerdote da religião judaica. Quem sofre de problemas na vista tem dificuldade para reconhecer pessoas de longe:

"E, pondo Paulo os olhos no conselho, disse: Homens irmãos, até ao dia de hoje tenho andado diante de Deus com toda a boa consciência. Mas o sumo sacerdote, Ananias, mandou aos que estavam junto dele que o ferissem na boca. Então Paulo lhe disse: Deus te ferirá, parede branqueada; tu estás aqui assentado para julgar-me conforme a lei, e contra a lei me mandas ferir? E os que ali estavam disseram: Injurias o sumo sacerdote de Deus? E Paulo disse: Não sabia, irmãos, que era o sumo sacerdote; porque está escrito: Não dirás mal do príncipe do teu povo." (At 23:1-5).

Numa época quando ainda não existiam oftalmologistas, optometristas e óticas, uma pessoa com problemas de visão precisaria se valer de algum tipo de lente precária para ler ou escrever, ou então escrever com letras grandes para conferir o que estava escrevendo. A lente mais antiga já descoberta tem três mil anos e foi encontrada nas ruínas de um palácio assírio no Iraque. Era uma rodela de cristal polido, que pode ter sido usada como lente para ler e escrever, para fazer fogo com a ajuda do sol, ou até em algum telescópio rudimentar.

Que o Senhor permitiu essa condição de enfermidade ou fraqueza na carne para lidar com o perigo de Paulo se gloriar das coisas elevadas que recebeu não há dúvida. Quanto à origem dessa condição podemos apenas especular. Pode ter sido por ele ter sido apedrejado quase até à morte em Atos 14, antes de escrever aos Gálatas, o que poderia tê-lo deixado com o rosto bastante desfigurado e seus olhos afetados.

Há quem diga que o problema seria ainda decorrente de seu encontro com o Senhor na estrada para Damasco em Atos 9, quando "indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu... E Saulo levantou-se da terra, e, abrindo os olhos, não via a ninguém. E, guiando-o pela mão, o conduziram a Damasco. E esteve três dias sem ver, e não comeu nem bebeu." (At 9:3, 8-9).

Mas só seria este o caso se a cura que ele recebe depois não tivesse sido completa: "E Ananias foi, e entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou, para que tornes a ver e sejas cheio do Espírito Santo. E logo lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e recuperou a vista; e, levantando-se, foi batizado." (At 9:17-18).

Portanto, o melhor mesmo é não nos concentrarmos no que era o espinho na carne e mantermos nosso foco na razão de Paulo ter recebido esse freio. Todos nós temos mais ou menos motivos de nos gloriarmos, e em diferentes medidas o Senhor permite que passemos por dificuldades, enfermidades e tribulações para aprendermos que nada somos em nós mesmos, mas dependemos dele em tudo.

O profeta Jeremias escreveu: "Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas, mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer, que eu sou o Senhor, que faço beneficência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor." (Jr 9:23-24).

E Paulo repete parte deste versículo por duas vezes em suas cartas admoestando que "aquele que se gloria, glorie-se no Senhor" (1 Co 1:31; 2 Co 10:17). Em outra carta ele mostra o melhor exemplo para seguirmos, que é o do próprio Senhor Jesus que não se gloriou nem de quem ele era, o Filho de Deus vindo em carne, mas momentaneamente deixou a forma de Deus — sem nunca deixar de ser Deus — para assumir "a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens". A passagem começa nos exortando a nada fazermos por "vanglória", palavra que se origina em "vã glória", ou seja, a glória que é vã e não presta para coisa alguma.

"Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz." (Fp 2:3-8).

por Mario Persona

Mario Persona é palestrante e consultor de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional (www.mariopersona.com.br). Não possui formação ou título eclesiástico e nem está ligado a alguma denominação religiosa, estando congregado desde 1981 somente ao Nome do Senhor Jesus. Esta mensagem originalmente não contém propaganda. Alguns sistemas de envio de email ou RSS costumam adicionar mensagens publicitárias que podem não expressar a opinião do autor.)

Mais acessadas da semana