As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.
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Por que não posso orar em língua estranha?



https://youtu.be/8yrHhTA-qyo

Você citou um versículo isolado e fora do contexto como argumento de que orar em língua estranha lhe traria algum proveito: “Porque, se eu orar em língua desconhecida, o meu espírito ora bem”. Mas que tal analisarmos o versículo dentro de seu contexto? Então teríamos de ler ao menos este trecho: “Por isso, o que fala em língua desconhecida, ore para que a possa interpretar. Porque, se eu orar em língua desconhecida, o meu espírito ora bem, mas o meu entendimento fica sem fruto. Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento. De outra maneira, se tu bendisseres com o espírito, como dirá o que ocupa o lugar de indouto, o Amém, sobre a tua ação de graças, visto que não sabe o que dizes?” (1 Co 14:13-16).

Pelo jeito você está pensando só em si mesmo, achando que "fruto" seja um benefício para atender apenas sua satisfação própria. Mas o cristão produz fruto para o benefício de outros, assim como qualquer árvore que Deus criou dá fruto, não apenas para preservar sua espécie, mas para alimentar outros seres vivos e até servir de adubo para novas árvores também de outras espécies. Se o seu próprio entendimento fica infrutífero ao orar assim isso não pode ser coisa boa.

O versículo 15 que você citou é uma conclusão de tudo o que Paulo havia dito antes, portanto não fará sentido se o ler isolado. Paulo está dizendo que iria orar, não só com o espírito (seu espírito humano), mas também de uma maneira a ser entendido. Não está dizendo que ele iria orar com seu próprio entendimento, mas que iria orar de modo a ajudar outros a entenderem o que estava orando. Por isso também fala de cantar com o espírito e também cantar com o entendimento. Veja que tudo no capítulo está no contexto de uma oração pública, pois na sequência fala dos que estariam ouvindo tal oração.

Juntando tudo, você precisa entender que o dom ou manifestação de línguas dado no início da Igreja não era algo para benefício da pessoa que o recebia, mas para um propósito exterior ao que falava. Era um sinal para os judeus perceberem que Deus estava fazendo uma grande obra, a saber, dando início à Igreja. Os coríntios, em seu egocentrismo e propensão ao exibicionismo, tinham entendido errado a função desse dom, que é explicado nos versículo 21 e 22: “Está escrito na lei: Por gente de outras línguas, e por outros lábios, falarei a este povo; e ainda assim me não ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis.”.

Costumamos ler o capítulo 14 de 1 Coríntios achando que Paulo só irá falar da reunião da igreja ou assembleia a partir do versículo 26, quando ele fala “Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais...” ou “quando vos reunis”. Mas na realidade o capítulo todo está falando do contexto da reunião dos santos. Ele corrige alguns erros no início do capítulo, para depois dar instruções positivas a partir do versículo 26. Mas desde o início ele está falando sim do assunto igreja, do congregar, como podemos ver no versículo 23, quando diz, “Se, pois, toda a igreja se congregar num lugar...”. Ali é para a igreja. Também no versículo 19, “Todavia eu antes quero falar na igreja cinco palavras na minha própria inteligência, para que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras em língua desconhecida.”

Portanto desde o versículo 1 o assunto é a ordem na assembleia, embora ele comece tratando de correções no uso abusivo e dos excessos cometidos com o dom de idiomas ou línguas estrangeiras, e passe depois a dar instruções positivas a partir do versículo 26. O que acontecia em Corinto hoje os pentecostais tentam repetir sem nenhuma necessidade, sem nenhum objetivo, com alguns usando dessa passagem isolada do versículo 14, como que se justificando: “Você está vendo? Ali diz que Deus aprova sim eu falar em línguas estranhas porque se eu orar em língua estranha o meu espírito ora bem.”.

A questão aqui é que ele está falando em relação a todos os outros que estão na reunião da igreja ou assembleia, e o apóstolo vai mostrar que a alma ou espírito do homem ora bem, porque ora a Deus, mas que no entanto o seu entendimento fica sem fruto. E quando é que o entendimento fica sem fruto? O fruto é obviamente o resultado daquilo que eu faço entre os irmãos, então quando eu profetizo — ou seja falo da parte de Deus para as pessoas —, eu falo aos outros para edificação a exortação e consolação, mas se oro em um idioma que ninguém entende não há para os outros qualquer fruto ou benefício.

É um engano achar que estes versículos de 1 Coríntios 14 estejam promovendo o falar em línguas como algo que precisaria ser feito entre os santos. Ao contrário, se traduzirmos para nosso modo atual de falar aquilo que Paulo está dizendo no versículo 20, ficaria algo como “Gente, vocês precisam crescer e parar com esse comportamento infantil de ficarem aí querendo se exibir!”. Estou me referindo ao versículo em que diz “Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento.” Percebe agora a ligação com o que ele diz antes de o entendimento ficar sem fruto? Paulo está dando um puxão de orelhas nos coríntios para eles pararem com aquela infantilidade.

As línguas haviam sido dadas, não como sinal para os fiéis, mas para os infiéis. Deus havia prometido no Antigo Testamento que falaria aos judeus em outras línguas, mas ainda assim eles não iriam ouvir. No primeiro capítulo desta carta Paulo explica que os gregos buscam sabedoria, porém os judeus buscam sinais, manifestações visíveis e audíveis do poder de Deus. Os gregos queriam sabedoria, pois era com o intelecto que mais se ocupavam, e por isso a Grécia foi o berço da filosofia. Os gregos eram muito mais ligados nas coisas invisíveis, intangíveis e intelectuais, mesmo que não tivessem nada de espirituais, do que nas visíveis e manifestas que agradavam ao judeus. Estes em toda a sua história eles foram, por assim dizer, amamentados com sinais e maravilhas visíveis do poder de Deus, como o mar se abrindo, colunas de nuvem e fogo por quarenta anos no céu, destruição milagrosa de exércitos inteiros etc.

Quando temos contato com irmãos saídos do meio pentecostal a maior dificuldade é com aqueles que acham que falavam línguas. É uma dificuldade tirar essa ideia de uma pessoa que foi criada no lugar onde estava, onde todo mundo vivia gritando palavras que ninguém entendia e alguns até alegando falar a língua dos anjos, quando nenhum lugar na bíblia encontramos algum tipo de língua de anjos. Paulo, em 1 Coríntios 13, usou a expressão "língua dos anjos" numa série de suposições que incluem coisas que ele obviamente também não possuía ou faria. "Ainda que eu falasse a língua dos anjos... conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes... ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado" (1 Co 13:1-3). Seria tão absurdo achar que ele falasse alguma língua dos anjos quanto achar que eu sou presidente dos Estados Unidos caso eu faça uma suposição do tipo "Ainda que eu fosse presidente dos Estados Unidos...".

Os anjos sempre aparecem falando uma língua humana, isso nós vemos desde o Jardim do Éden, quando ainda não existia a variedade de idiomas que só viria mais tarde na forma de um juízo de Deus. Ali no Éden vemos Satanás, que é um querubim, falando com Eva numa língua que era língua que Adão e Eva entenderiam. Também vemos Deus falando com Adão e Eva numa língua que eles entendiam, mesmo porque os diferentes idiomas só viriam a existir bem mais tarde como um juízo de Deus contra os homens que construíam a Torre de Babel. Ali Deus desceu para confundir suas línguas; um juízo de Deus, não uma bênção. Ninguém devia se gloriar de falar muitas línguas, pois aqueles muitos idiomas vieram como uma repreensão dada por Deus para o fato de eles desejarem se fazer conhecidos, ter um nome na terra que Deus tinha amaldiçoado, serem independentes de Deus, como é sempre a questão relacionada ao pecado. Agora você vai querer se gabar de falar uma língua que ninguém entende e ainda acha que isso é bíblico?

Em Atos 2 Deus dava uma mostra de estar revertendo aquele juízo para que, na Igreja, todos pudessem se entender, cada um no seu próprio idioma, e também para que aquilo fosse uma forma de convencer os judeus incrédulos de que Deus estava fazendo uma obra que não era no lugar onde originalmente Jeová havia colocado o seu nome, que era o Templo de Jerusalém. Ali em Atos 2, no dia de Pentecostes, judeus de várias nações podiam entender o que os irmãos falavam e saber que o Senhor estava agora no meio da Igreja, não mais no meio de Israel.

Naquele dia foram idiomas de diferentes nações que foram falados ali quando o Espírito Santo desceu na formação da Igreja. Que idiomas? Bem os nomes daquelas diferentes línguas poderiam ser outros na época, então vou adaptar à nacionalidade de cada um para dizer que os discípulos falaram ao menos umas 14 línguas: partonês, medonês, elamitês, mesopotamianês, hebraico, capadociês, pontês, frigiês, panfiliês, egípcio, líbio, cirenês, latim, hebraico.

Desculpe-me por inventar esses nomes de idiomas, eu apenas segui a aparente regra que é dizer que portugueses falam português, italianos falam italianos e alemães falam alemão. Mas meu exemplo pode servir para você entender que falar em línguas é falar em idiomas. A palavra "estranhas" que aparece depois de "línguas" em algumas versões da Bíblia foi introduzida pelos tradutores, porque o sentido é mesmo o de idiomas. Faça uma busca no Google por "escola de línguas" e verá que o resultado trará escolas de idiomas, e qualquer pessoa sensata saberia que uma escola de línguas ensina idiomas, e não algum tipo de bla bla bla sem sentido, como é comum nos meios pentecostais.

Voltando a Corinto, encontramos aqueles irmãos querendo parecer mais espirituais e se orgulhar de seus dons. Tudo não passava de egocentrismo, inclusive o argumento que você colocou, de que alguém poderia orar em outras línguas porque seu espírito iria ser beneficiado com isso. E os outros? Aquilo que aconteceu no dia de Pentecostes, em meio àqueles judeus vindos de várias nações e ouvindo as maravilhas de Deus em seus próprios idiomas, era sim uma manifestação do Espírito Santo de Deus, e não tinha ninguém falando um idioma angelical. Ali tinha "partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotámia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, e Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes" (At 2:9-11). Pode conferir e não vai encontrar algum vindo de algum país angelical.

As línguas eram inteligíveis, ou seja, aqueles que as ouviam sabiam exatamente o que eles estavam ouvindo. E agora, em Corinto, encontramos pessoas achando que era um privilégio falar em um idioma desconhecido para todos os demais numa reunião de cristãos. Aquele dom obviamente tinha sua função naqueles primeiros dias da igreja quando muitos judeus ainda precisavam ser convencidos de que o Senhor tinha deixado o Templo para estar no meio de dois ou três congregados ao seu nome. E por ser um dom ainda necessário — porque “a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil” (1 Co 12:7) —, mais adiante Paulo iria ensinar que se alguém falasse em línguas deveriam ser dois ou três e que existissem intérpretes, caso contrário a pessoa deveria falar consigo mesma e com Deus, ou seja, silenciosamente. Com toda certeza haveria ali judeus no meio deles e o Espírito Santo de Deus estaria se manifestando de uma forma que judeus fossem convencidos por aquele sinal.

Mas todo o escopo do que Paulo está falando é de que profetizar é mais proveitoso, em todos os sentidos, do que o falar em línguas, pois o que profetiza fala aos homens de uma maneira que os homens entendem, mas o falar em línguas numa reunião da igreja sem intérprete seria mera perda de tempo. Se você hoje entrar numa reunião de cristãos pentecostais encontrará dezenas de pessoas gritando palavras sem qualquer sentido, todas ao mesmo tempo e achando que aquilo vem de Deus. Não vem. Existe na psiquiatria um distúrbio chamado glossolalia, que são pessoas que entram em transe e começam a falar numa outra língua sem terem aprendido.

Quando eu era estudante morei numa república e uma noite fui acordado pelo colega que dormia no beliche acima do meu falando inglês fluentemente. Eu tinha morado nos Estados Unidos e sabia inglês, mas ele não sabia falar nada nessa língua. No entanto estava fazendo aquilo dormindo, o que só podia ser uma manifestação de seu subconsciente que tinha armazenado diálogos de filmes e letras de música em inglês. Não tinha nada de espiritual naquilo, era basicamente uma manifestação cerebral de sua memória e subconsciente, de coisas que ele tinha ouvido e agora eram trazidas para fora como em um sonho. Todos nós sonhamos experiências que nunca tivemos, mas nada mais são do que construções cerebrais de uma coletânea de experiências visuais e auditivas que estavam gravadas em nosso cérebro e este, de algum modo, as colocou em ordem para fazer sentido como se fossem reais.

Quando lidamos com irmãos que saem principalmente do meio pentecostal vemos o quão contaminados foram por doutrinas estranhas que os levavam a manifestar comportamentos que pareciam ser de Deus, mas não eram. Demora algum tempo até entenderem que aquelas coisas eram manifestações do intelecto, da emoção, de histeria coletiva ou até de exibicionismo de pessoas que repetiam o que as outras faziam, só para não se sentirem inferiorizadas. Em algumas igrejas pentecostais o pastor ensina a pessoa a falar em línguas pedindo que elas repitam algumas palavras e façam isso rapidamente até a língua enrolar. Aí a pessoa começa a falar um montão de palavras sem nexo e aquela enrolação da língua acaba sendo atribuída ao Espírito Santo. Experimente falar bem rápido "a aranha arranha a rã, a rã arranha a aranha., nem a aranha arranha a rã, em a rã arranha a aranha" e aposto que em três minutos você estará falando uma língua bem estranha que irá impressionar sua família.

É muito importante entender o que está escrito neste capítulo, e o apóstolo deixa muito claro quando pergunta: “Se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha?” (1 Co 14:8). E ele reforça isso quando diz nos versículos 9 e 10: “Assim também vós, se com a língua não pronunciardes palavras bem inteligíveis, como se entenderá o que se diz? porque estareis como que falando ao ar. Há, por exemplo, tanta espécie de vozes no mundo, e nenhuma delas é sem significação.”. Será que é tão difícil assim de entender que Paulo está falando de idiomas falados para pessoas que possam entender o que está sendo dito?

Qualquer um de nós, caminhando na rua, saberia identificar uma pessoa com distúrbio psicológico que passasse ao nosso lado falando sozinha. A menos que fosse alguém falando ao celular com um fone sem fio, não teria utilidade alguma as coisas que ela estaria falando pois saberíamos tratar-se de alguém com problema psicológico e psiquiátrico. Por isso Paulo começa no versículo 12 a falar de como devemos desejar dons espirituais que sejam para a edificação da igreja, e não para algo que, mesmo que me traga alguma satisfação, não traz qualquer fruto para as pessoas ao meu redor. Por isso ele complementa: “Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento. De outra maneira, se tu bendisseres com o espírito, como dirá o que ocupa o lugar de indouto, o Amém, sobre a tua ação de graças, visto que não sabe o que dizes? Porque realmente tu dás bem as graças, mas o outro não é edificado.” (1 Co 14:15-17).

Paulo era um homem ilustre, bem educado, que falava diferentes idiomas. Ele não tinha nascido na Judéia, mas em Tarso, que ficava na Turquia. Paulo era turco, mas ao mesmo tempo romano por sua cidade pertencer ao Império Romano. Ele devia falar turco e também latim, mas devia falar também o grego, que era a língua universal da cultura da época, e também o hebraico por ser judeu e educado aos pés de um dos grandes sábios do judaísmo, Gamaliel. Com essa bagagem toda ele bem podia dizer, sem precisar se gabar por isso: “Dou graças ao meu Deus, porque falo mais línguas do que vós todos. Todavia eu antes quero falar na igreja cinco palavras na minha própria inteligência, para que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras em língua desconhecida.” (1 Co 14:18-19).

Nos versículos 24 e 25 Paulo irá falar da vantagem de se profetizar: “Se todos profetizarem, e algum indouto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado. Portanto, os segredos do seu coração ficarão manifestos, e assim, lançando-se sobre o seu rosto, adorará a Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre vós.” Por isso é muito estranho quando encontramos cristãos pentecostais que argumentam que Deus está entre eles em suas reuniões por existirem pessoas falando línguas que ninguém entende.

No entanto, aqui Paulo está dizendo o contrário, pois o falar na forma de profecia — falar da parte de Deus, proferir o que Deus diz em sua Palavra — é o que realmente irá convencer os incrédulos de que Deus está ali, pois “a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm 10:17). Ouvir algo que possa entender é o que irá convencer alguém de que Deus está verdadeiramente se manifestando naquela reunião da igreja, e não ouvir um palavreado sem nexo. Um pouco antes o apóstolo tinha esclarecido a função dos diferentes idiomas e sua relação com os judeus, fossem eles indoutos, ou seja, recém convertidos e com pouco conhecimento, ou infiéis, isto é, incrédulos:

"Está escrito na lei: Por gente de outras línguas, e por outros lábios, falarei a este povo; e ainda assim me não ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis. Se, pois, toda a igreja se congregar num lugar, e todos falarem em línguas, e entrarem indoutos ou infiéis, não dirão porventura que estais loucos? Mas, se todos profetizarem, e algum indouto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado. Portanto, os segredos do seu coração ficarão manifestos, e assim, lançando-se sobre o seu rosto, adorará a Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre vós." (1 Co 14:21-25).

A razão de Deus trazer uma abundância de sinais justamente nos primeiros dias da fundação da Igreja era para mostrar aos judeus que ele não estaria mais habitando no lugar físico onde antes ele tinha prometido colocar o seu nome, isto é, em Jerusalém e em seu Templo ali. A partir dali o Senhor estaria no meio de dois ou três congregados pelo Espírito Santo ao seu Nome. Em Atos 2 o Espírito havia descido do céu para formar a igreja como um só corpo, no qual as diferenças linguísticas perderiam sua razão de ser porque era para os homens se entenderem.

Uma ilustração que ajuda a entender os sinais e maravilhas que ocorriam no período inaugural da igreja é o que vemos no lançamento de um empreendimento na cidade. Para lançar um prédio novo a construtora costuma promover uma carreata com todos buzinando, balançando bandeiras, tocando música alta, anunciando num alto falante o lançamento do empreendimento. Pessoas com bandeiras gritam e soltam rojões, tudo para chamar a atenção para o lançamento daquele novo edifício ou condomínio. A mensagem publicitária é sempre a mesma: “Este é o lugar para você morar! Deixe sua velha casa e venha para este apartamento novo e moderno! Aqui tem varanda gourmet, piscina, salão de festas, academia de ginástica etc.” Eles anunciam todas as vantagens da nova casa, e foi isso que Deus fez na fundação da igreja, aquela que a partir dali seria a casa de Deus.

Todo aquele barulho só faz sentido no lançamento de um empreendimento, assim como todas aquelas manifestações tinham a intenção de chamar a atenção para o novo empreendimento de Deus. Aquilo tudo dizia aos judeus que Jerusalém e o Templo não eram mais o lugar onde Deus habitaria e onde deviam adorar. Agora tudo se concentrava num nome, o Nome de Jesus, em torno do qual os cristãos estariam congregados.

Eu moro num edifício de apartamentos que deve ter mais de 30 anos que foi construído. Na época de seu lançamento devem ter feito toda essa promoção com carreatas e rojões, mas hoje não faria sentido eu acordar de manhã com um pessoal soltando rojão na frente do prédio, com buzinas, meninas balançando bandeiras e tudo mais. Eu abriria a janela e diria: “O que é isso, gente?! As pessoas já estão morando aqui, vocês não precisam mais fazer barulho para avisar que o prédio foi construído!”.

É isso que o pentecostalismo tenta fazer com a reunião dos cristãos, com toda uma barulheira que já não tem sentido porque a casa de Deus já está com mais de dois mil anos desde que foi lançado seu alicerce. Raramente haverá um judeu numa dessas reuniões pentecostais que precise ser convencido da mudança do lugar onde o Senhor colocou seu nome.

Mas línguas estranhas faladas nesse meio são um problema muito mais grave do que os próprios cristãos ali poderiam imaginar, e eu explico a razão. Vou traduzir o que encontrei em uma publicação: "Um missionário vindo da África estava passando férias na Europa. Ele visitava a reunião de oração de uma igreja pentecostal quando, de repente, ouviu uma oração em um dialeto africano que ele próprio conhecia. A oração nada mais era do que uma série de blasfêmias contra a Santa Trindade. O missionário saiu da sala para não se fazer participante daquelas ofensas. Esperou do lado de fora até a reunião terminar e disse ao que tinha feito aquela oração em outra língua o que ele tinha realmente falado". (Charismatic Fifts, The Variety of Ministries").

Certamente era um espírito maligno influenciando quem falava, mas apenas o missionário era capaz de entender o que dizia. Do mesmo modo, quando você estiver dizendo “Amém!” para um monte de palavras que você não entende, já parou para pensar que pode estar concordando com alguém que está xingando você ou sua mãe? Ou, pior ainda, blasfemando do nome de Jesus? Concordar com algo que alguém diz numa língua que você não conhece não é nada prudente, e vou contar aqui um caso engraçado que aconteceu com pessoas que conheço.

Um brasileiro quis fazer uma brincadeira com seu futuro cunhado norte americano, que veio ao Brasil pedir ao pai da noiva a mão dela em casamento. O americano pediu ao irmão da noiva que ensinasse uma frase em português, o suficiente para dizer: “I wanna marry your daughter" ("Quero me casar com sua filha”). O brasileiro, de brincadeira, disse a ele que em português ele devia dizer “Sua careca é bonita”. Então o futuro cunhado passou a maior vergonha quando, na frente de todos, disse ao futuro sogro "Sua careca é bonita". O sogro percebeu a brincadeira e riu muito. Espero que isto sirva para você perceber a ingenuidade que é concordar com algo que não sabe traduzir. Será que você nunca cogitou na possibilidade de aquela manifestação que chamam de "línguas" ser causada por fingimento, problemas psicológicos, histeria coletiva, ou mesmo influência demoníaca? Como você vai saber se não entende o que a pessoa diz?

Muitos cristãos, influenciados pela doutrina pentecostal, que tanto escândalo tem trazido ao testemunho cristão principalmente com sua variante neo pentecostal e seus pregadores da prosperidade, podem estar agora mesmo fazendo ingenuamente a obra do diabo. São inocentes úteis nas mãos de espíritos malignos. Os anjos, caídos ou não, estão por toda a parte, inclusive observando os cristãos, “para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais” (Ef 3:10). Aqueles que são seduzidos pela busca de sinais e maravilhas numa época de tamanha ruína do testemunho cristão, como esta em que vivemos, estão engrossando as fileiras dos que um dia receberão um homem que será mestre em fazer milagres.

“Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios... Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios da mentira... Também opera grandes sinais, de maneira que até fogo do céu faz descer à terra, diante dos homens. Seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais... Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores... Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade. ” (Mt 24:24; 1 Ts 2:9; Ap 13:13-14; Mt 7:15-23).

por Mario Persona

Mario Persona é palestrante e consultor de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional (www.mariopersona.com.br). Não possui formação ou título eclesiástico e nem está ligado a alguma denominação religiosa, estando congregado desde 1981 somente ao Nome do Senhor Jesus. Esta mensagem originalmente não contém propaganda. Alguns sistemas de envio de email ou RSS costumam adicionar mensagens publicitárias que podem não expressar a opinião do autor.)

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