As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.
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Posso ler tudo do site que voce indicou?



https://youtu.be/qVIgW29bQGE

Não, provavelmente nem tudo o que existe naquele site será proveitoso. Eu não indiquei o site, mas apenas o link para baixar um e-book de John Nelson Darby que estava naquele site, onde você encontra também muitas outras coisas que não me detive para analisar. Todo cristão deve julgar todas as coisas — até mesmo as que escrevo, falo ou indico — e mais que isso, desenvolver um sentido espiritual adequado para não se deixar levar com tudo o que vem com a etiqueta "cristão" ou "gospel.

Outro dia assisti no Netflix um documentário muito interessante sobre o olfato, chamado "Empire of Scents". Nele o especialista em gastronomia e vinhos François Chater, autor de "Taste Buds and Molecules: The Art and Science of Food, Wine, and Flavor" ("Papilas Gustativas e Moléculas: A Arte e Ciência do Alimento, Vinho e Sabor"), conta de quando viu numa praia um caranguejo dos recifes caminhar em direção à floresta, parar debaixo de uma grande árvore e desenterrar uma enorme trufa. Assim como cães e porcos, animais usados pelos coletores de trufas na Europa, aquele caranguejo era capaz de identificar o cheiro do cogumelo debaixo da terra para saber exatamente onde encontrá-lo.

Não damos tanta atenção ao sentido do olfato como damos à visão, audição, paladar e tato, porque ficamos acostumados a não recorrer sempre a ele. Animais são muito mais dependentes do olfato do que os seres humanos, e para eles isso pode fazer a diferença entre a vida e a morte. No mesmo documentário ouvi o relato de alguém que perdeu o olfato dizendo que também perdeu o paladar, o que me ajudou a ver como é importante o olfato. Desde então tenho procurado prestar mais atenção aos aromas e acho até que podemos ampliar nossa percepção do que nos cerca quando treinamos e desenvolvemos este sentido.

Degustadores de comida e bebidas, como vinho e café, fazem isso com o paladar. Já vi programas em que chefes de cozinha eram desafiados a provar um tempero e identificar seus ingredientes apenas com o paladar. Existem também pessoas que trabalham na indústria de cosméticos que têm um senso extremamente apurado para identificar aromas, inclusive dando o nome da flor ou da substância de onde vêm. Pintores conseguem identificar nuances de cores que um leigo jamais perceberia, e escultores identificam formas melhor que ninguém juntando a visão ao tato. Deficientes visuais costumam ter um tato mais refinado e um ouvido mais afinado também, pois a falta da visão faz com que treinem outros sentidos.

E o cristão? Não deveria "treinar" também seus sentidos espirituais capacitados a perceber as coisas espirituais? Sem dúvida. Somos exortados na Palavra de Deus a treinar nossos sentidos espirituais para sermos capazes de discernir aquilo que nossos cinco sentidos físicos não são capazes de perceber. Assim como nossos olhos carnais precisam de luz para poderem enxergar, nossos "olhos espirituais" dependem da Luz da Palavra de Deus para distinguir cores e formas de coisas espirituais.

Um exemplo disso é a miopia que nos acomete quando o assunto é a Igreja, ou a esperança e vocação celestiais do crente, o poder manifestado na ressurreição que garante existir hoje um Homem de carne e ossos no céu, a Cabeça da Igreja que é o seu corpo, verdades preciosas que só podem ser entendidas quando enxergadas pelo "homem espiritual" com as lentes das Sagradas Escrituras. Por isso Paulo escreve:

"Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Porém o homem espiritual julga todas as coisas... Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos;  e qual a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; e sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos." (1 Co 2:14-15; Ef 1:18-23).

Quem teve os olhos de seu entendimento iluminados pela luz da Palavra de Deus não irá perguntar a um cristão "Qual a sua igreja?", pois saberá que a Igreja é o corpo de Cristo do qual são membros todos os salvos, e nunca o corpo de alguma instituição religiosa que eventualmente pode reunir apenas alguns deles. Também não perguntará "Quem é seu pastor?", porque terá luz suficiente para entender que o Pastor é Cristo e que não existe nas Escrituras a figura de um homem à frente de uma congregação.

À medida que um salvo cresce no conhecimento, na comunhão com o Pai, e na sujeição às Escrituras, como um motorista que sai na estrada ele vai passando sucessivamente da condição de faróis desligados para a de lanternas ligadas, faróis baixos e faróis altos capazes de enxergar cada vez melhor e mais longe. Mas não ajudará muito se o cristão só souber enxergar, porém for deficiente de uma audição espiritual. "De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus." (Rm 10:17). A primeira coisa que um salvo por Cristo precisa saber identificar é o som da voz de seu Pastor, para não ser iludido pelas muitas vozes existentes hoje no mundo religioso. O Senhor Jesus revelou uma das características para se identificar quem é ou não sua ovelha:

"As ovelhas ouvem a sua voz [do Pastor que é Cristo], e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos... As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem... (Jo 10:3-5, 27). A expressão "Quem tem ouvidos" é repetida ao menos dezesseis vezes no Novo Testamento.

Possuir tato espiritual é outra necessidade para o cristão não se queimar ou congelar em sua vida espiritual. O tato permite tanto tocarmos as coisas de Deus, como percebermos quando somos tocados por ele. A mulher de Lucas 8:44 "chegando por detrás dele [de Jesus], tocou na orla do seu vestido, e logo estancou o fluxo do seu sangue.". Bastou um leve toque de fé na Pessoa certa para ela ter resolvido um problema que médico algum tinha conseguido resolver. João e os outros discípulos tiveram o privilégio, não só de tocar, mas também de ver e ouvir o Senhor, Criador e Redentor quando esteve aqui:

"O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida (Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada); o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo." (1 Jo 1:1-3). 

Ao falar aos gregos pagãos, Paulo explicou que Deus havia criado todas as coisas e também os homens "para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar" (At 17:27), algo impossível ao homem natural depois da queda e do pecado que invadiu a Criação. Mas quando Deus toca alguém ele começa uma obra nessa pessoa e ela saberá que foi tocada. "E foi também Saul à sua casa, em Gibeá; e foram com ele do exército aqueles cujos corações Deus tocara... Jesus tocou-lhes, e disse: Levantai-vos, e não tenhais medo... Jesus, movido de íntima compaixão, tocou-lhes nos olhos, e logo viram; e eles o seguiram... E Jesus, movido de grande compaixão, estendeu a mão, e tocou-o, e disse-lhe: Quero, sê limpo." (1 Sm 10:26; Mt 17:7; 20:34; Mc 1:41).

Mas espere que ainda tem mais! Deus quer que desenvolvamos nosso olfato e paladar espirituais para podermos discernir e desfrutar da Pessoa de Cristo. Para isso "nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus." (1 Co 2:12). A maravilha disso é que o crente está capacitado, não apenas a reconhecer "o aroma de vida para vida", mas também a poder exalar essa fragrância por onde quer  que vá.

"Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem. Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida. Quem, porém, é suficiente para estas coisas? Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus" (2 Co 2:14-17).

O cristão também tem seu paladar espiritual apurado para discernir entre os diferentes alimentos necessários para seu crescimento espiritual, a fim de não só desejar ardentemente, "como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual" (2 Pe 2:2), mas também "o alimento sólido [que é] é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal." (Hb 5:14). É com esses sentidos apurados que você poderá desfrutar da exortação no Salmo 34:8, que diz: "Oh! Provai e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele se refugia.".

Os sentidos espirituais aguçados também ajudam o cristão a testemunhar de tudo isso, mas é bom que se saiba que o crente em Cristo terá de experimentar tanto o conhecimento intelectual da Verdade, tão doce de ser falada aos outros, quanto a aplicação prática em sua própria vida. O apóstolo João aprendeu isso em Apocalipse 10:9-11: "E fui ao anjo, dizendo-lhe: Dá-me o livrinho. E ele disse-me: Toma-o, e come-o, e ele fará amargo o teu ventre, mas na tua boca será doce como mel. E tomei o livrinho da mão do anjo, e comi-o; e na minha boca era doce como mel; e, havendo-o comido, o meu ventre ficou amargo.". Só depois desse exercício de mastigar bem e engolir para si a Verdade é que João estava preparado para testemunhar. "E ele disse-me: Importa que profetizes outra vez a muitos povos, e nações, e línguas e reis.".

Tudo isso eu disse para mostrar a você que a vida cristã não é uma lista de "Pode! Não pode!", mas sim um exercício contínuo de conhecer a Palavra em comunhão com a vontade do Senhor, para poder perceber as nuances das cores, sons, cheiros, sabores e texturas na esfera espiritual. Isso evitará que sintamos "coceira nos ouvidos", como alguns que "se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas." (2 Tm 4:3-4). Ou como os judeus que, de tanto se recusarem a obedecer a Deus, acabaram ficando com um "espírito de profundo sono, olhos para não verem, e ouvidos para não ouvirem" (Rm 11:8).

A tecnologia da informação pegou muitos cristãos de surpresa, os quais de uma hora para outra se viram imersos na proverbial "Biblioteca de Babel", imaginada pelo escritor argentino Jorge Luiz Borges. São tantas as cores, formas, sons, sabores e aromas ao alcance das mãos que eles facilmente se perdem no desconhecimento, na má doutrina e nas teorias conspiratórias, ao invés de procurarem ficar ancorados na Verdade.

Alguns, com a melhor das intenções, podem sugerir que o cristão só se ocupe com aquilo que vier com um "Imprimátur", aquela autorização do Vaticano à qual o clero católico recorreu no passado, quando percebeu que a produção literária seria descontroladamente abundante. Então a Igreja Católica impôs uma censura, não somente aos livros, mas também aos autores e editores que tentassem produzir algo fora do controle da Sé romana. Poucos sabem que essa censura, que existiu durante séculos em Portugal, também prevaleceu no Brasil colônia, quando as gráficas eram proibidas aqui e os livros e jornais em português, impressos na Inglaterra e sem passarem pelo crivo papal, chegavam aqui via contrabando.

É natural que alguns irmãos mais experientes procurem desencorajar os mais novos a se alimentarem de sites e autores que possam trazer erros doutrinários mais ou menos graves. Todos procuramos ser zelosos no cuidado de apascentar os "cordeiros", aqueles recém nascidos na fé, para que aprendam o que é certo, assim como tivemos irmãos mais experientes no passado que também tiveram esse zelo para conosco. Paulo demonstrou o mesmo zelo para com os irmãos de Corinto:

"Quisera eu me suportásseis um pouco mais na minha loucura. Suportai-me, pois. Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo. Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente [ou 'vossos sentidos', em outra versão] e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo. Se, na verdade, vindo alguém, prega outro Jesus que não temos pregado, ou se aceitais espírito diferente que não tendes recebido, ou evangelho diferente que não tendes abraçado, a esse, de boa mente, o tolerais." (1 Co 11:1-4).

Mas não entenda isso como alguma forma de "controle", ou como se entre os irmãos congregados apenas ao nome do Senhor existisse algum tipo de "lei" que proibisse determinadas leituras, áudios e vídeos provenientes do "arraial" religioso. No judaísmo os judeus viviam num aprisco, isto é, um lugar cercado de muros para controlá-los e evitar que se misturassem com o que era errado. Era a isso que Jesus se referia, quando disse:

"Aquele, porém, que entra pela porta é o pastor das ovelhas. A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos." (Jo 10:2-5).

Nós cristãos não temos um aprisco, temos um Pastor. A diferença entre ovelhas num aprisco e ovelhas que seguem o pastor é enorme. No aprisco elas são controladas por cercas, mas com o Pastor elas são atraídas pelo Pastor no centro delas. O que as faz permanecer juntas não é um conjunto de regras, mas o próprio Pastor. Quando elas se afastam dele podem cair em armadilhas, penhascos e serem atacadas pelos lobos.

A segurança delas está em aprender a identificar a voz do Pastor, e não em manter um arquivo com todas as vozes possíveis que o lobo possa usar, pois isso demandaria um tempo enorme para elas aprenderem todo tipo de voz. Também não está na criação de cercas e muros, porque isso não funcionou no judaísmo e não funciona hoje, apesar de muitas religiões tentarem. Algumas mais radicais proíbem aos seus membros, não apenas a leitura daquilo que não traga seu próprio "Imprimátur", como faz o catolicismo romano, mas até a leitura de qualquer livro ou comentário bíblico independente de quem seja o autor ou a editora.

O caminho mais curto para o domínio e controle das pessoas, muito usado em religiões e regimes totalitários, é simplesmente proibir. Se alguém perguntar a razão, a ordem a resposta é "Porque sim". Porém cristão não é gado, que precisa de cerca, ou cavalo que precisa de freios para ser controlado. É certo que educamos nossos filhos quando são pequenos para discernirem as coisas que podem representar perigo, mas chega um momento quando você já não atravessa a rua segurando a mão de um marmanjo de trinta anos de idade. É claro que dá mais trabalho ensinar de modo que cada um desenvolva seus próprios sentidos, mas creio ser o melhor caminho.

Às vezes indico algum livro digital, áudio ou vídeo em um determinado site ou canal por considerar seu autor idôneo, mas isso não significa que esteja dando aval a tudo o que se encontra naquele endereço. Até meus vídeos, quando são vistos no Youtube, aparecem cercados de vídeos de pessoas e assuntos totalmente reprováveis, mas nada posso fazer para evitar. Caberá ao espectador saber discernir. Lembro-me de uma pessoa que escreveu criticando como eu podia sugerir um vídeo espírita. É que em seu computador o Youtube automaticamente colocou o tal vídeo na sequência após o meu.

Quando entendemos que a Web toda é um único endereço que reúne coisas boas, mas principalmente coisas ruins, passamos a ter mais cuidado e a analisar as coisas por seu mérito próprio. Desenvolver esse feeling é importante, pois aí podemos identificar se o ministério de um irmão é de sã doutrina em conformidade com as Escrituras e se podemos ser auxiliados por ele. E quando sabemos identificar a voz do Pastor podemos muito bem identificar o que está ou não no mesmo tom e em conformidade com a sua Palavra, sem precisarmos de cercas ou muros criados por algum sistema religioso.

Mas se não existe, entre os irmãos congregados somente ao nome do Senhor, uma lista do que pode e do que não pode, como me precaver do erro? Mantendo a proximidade com o Pastor e sua Palavra. A Palavra de Deus é muito clara ao dizer coisas como "Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem" (1 Ts 5:19-21). Também diz "Mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis. E, se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Assim, pois, há muitos membros, mas um corpo. E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós. Antes, os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários" (1 Co 12:18-22).

Se eu discriminar os diferentes ministérios e dons que Deus deu à Igreja apenas pelo critério de estar ou não em comunhão com os mesmos irmãos com os quais estou, acabarei sendo mais sectário que as próprias denominações que são sectárias por definição. [Cabe ressaltar aqui que o termo "ministérios" na Bíblia nada tem a ver com seu uso moderno, que tenta fazê-lo significar diferentes denominações ou sistemas religiosos. Ministério é simplesmente o ato de alguém ministrar algo segundo a Palavra de Deus.].

Costumo fazer minha seleção do que leio usando alguns critérios e pistas. Antes de beber todo o conteúdo da garrafa eu procuro pelo rótulo. Quem foi que disse isso? Se vejo um autor que já foi reconhecido como idôneo por outros irmãos com os quais tenho comunhão e têm maior experiência na Palavra, fico mais sossegado. Se não conheço o nome do autor posso tentar descobrir quem publicou. Se foi alguma editora denominacional, provavelmente eu só irei ler se for um livro histórico, devocional ou biográfico, e eventualmente algo evangelístico. Mas neste caso com atenção redobrada, pois na cristandade algo chamado de evangélico não significa que esteja de acordo com o evangelho ou que fale da graça de Deus. Provavelmente irá falar de salvação por obras ou perseverança até o fim para se manter salvo.

Por exemplo, Spurgeon foi um pregador muito usado por Deus e com excelentes mensagens evangelísticas, mas seguia a Teologia do Pacto e era radicalmente contra o que os irmãos congregados somente ao nome do Senhor no século 19 ensinavam, alguns dos quais ele conhecia pessoalmente. Quando William Kelly, que era reconhecido na Inglaterra por sua erudição, deixou o sistema religioso para congregar com os irmãos, Spurgeon escreveu: "[William Kelly] escritor eminente da escola exclusivista de Plymouth (...) expõe habilmente as escrituras, mas com um toque peculiar do seu partido teológico. (...). Kelly é um homem que, nascido para o universo, estreitou sua mente para um movimento".

Outro critério que utilizo é o da origem do texto. Se for de irmãos que professam estar apartados das denominações, mas que congregam em grupos que se originaram de divisões no passado, sou obrigado a ligar meu desconfiômetro e talvez só leia aquilo que sei que não traz os erros e equívocos que esses grupos professam. Citando apenas uma ou duas dessas divisões, eu diria que meu alerta ficaria ligado, ou nem gastaria meu tempo, para o que seus autores dizem sobre a mesa do Senhor, disciplina na assembleia, batismo e talvez mais algum assunto.

Existem, porém, autores de divisões ocorridas no passado entre os irmãos congregados ao nome do Senhor que eu evitaria a qualquer custo. Um exemplo são os escritos de F. E. Raven, que esteve reunido no século 19, porém acabou criando uma divisão por suas doutrinas que comprometiam a divindade de Cristo. Hoje essa divisão é conhecida como "exclusive brethren", e é um grupo bastante grande e influente na Austrália e Nova Zelândia.

Um irmão norte-americano disse certa vez que quando via um crente de alguma denominação lendo a Bíblia de Scofield, ficava contente. Mas quando via um irmão congregado ao nome do Senhor lendo a mesma Bíblia ficava triste. O que ele queria dizer é que aquela edição podia servir para quem não tinha qualquer conhecimento da verdade dispensacional, mas não era a melhor fonte neste sentido. Scofield foi um pastor protestante que aprendeu algumas dessas verdades com irmãos do século 19 e publicou uma Bíblia com comentários no rodapé. Mas ele próprio não entendeu tudo o que leu, e prova disso é ter continuado como pastor de uma denominação.

Para terminar, a única fonte infalível de Verdade é a Palavra de Deus. Todos os homens estão sujeitos a falhas, maiores ou menores, em seus ministérios, por isso a responsabilidade de cada um é desenvolver seus sentidos espirituais para julgar, evitando obviamente o que já vem sabidamente contendo erros graves. Afinal, até quando estamos congregados ao nome do Senhor a ordem é "falem dois ou três profetas, e os outros julguem." (1 Co 14:29). Se aquilo que os irmãos em comunhão dizem fosse considerado como infalível não haveria necessidade de julgarmos nas reuniões o que está sendo dito. Infelizmente isso é vedado àqueles que congregam em algum sistema denominacional, já que precisam engolir sem contestar o que o pastor diz, de si mesmo, ou mandado por uma organização central.

Todo cuidado em julgar o que vemos e ouvimos é necessário, pois Espírito Santo sabia que nossa carne poderia muito bem se infiltrar e incluir ideias contrárias à Palavra de Deus em nossos discursos, mesmo entre os congregados somente ao nome do Senhor e fora dos sistemas religiosos. Quando os sentidos não estão embotados, o crente tem consciência e discernimento suficientes para identificar o que vem de Deus e o que não vem. Geralmente coisas como diminuição da divindade de Cristo, exaltação do homem, legalismo, autoritarismo, ausência de compaixão e graça, etc. costumam ser os problemas mais facilmente detectados no ministério, e o manual para isso continuará sempre sendo a Bíblia aplicada pelo Espírito Santo.

Portanto, ainda que eu ou algum outro irmão publique algo, o seu dever é o de julgar de onde vem aquilo e se está em conformidade com a Palavra de Deus. Às vezes algo bom pode estar sendo produzido no lugar errado, como a Bíblia impressa que utilizo, que é publicada pela editora que pertence a um pregador ao qual eu não perderia cinco minutos de meu tempo para escutar, e muito menos para atender a seus repetidos apelos pedindo ofertas em troca de bênçãos, milagres e prosperidade.

O mesmo acontece com a música cristã, hoje também conhecida como gospel. Se há alguns anos era possível ser inspirado e encorajado pelas letras e melodias de alguns cantores evangélicos, hoje boa parte do que se escuta por aí não passa de lixo para inchar o ego e a autoestima com brados prepotentes de "Eu posso! Eu clamo! Eu ordeno! Eu arrebento!". Transformaram Deus em um gênio da lâmpada à disposição do homem para atender às suas concupiscências de boa forma física, poder, riqueza e fama. E se você perguntasse a algum desses o que pediria, caso Deus estivesse pronto a satisfazer três desejos como o gênio da lendária lâmpada de Aladim, provavelmente ele responderia: "Três deuses".

por Mario Persona

Mario Persona é palestrante e consultor de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional (www.mariopersona.com.br). Não possui formação ou título eclesiástico e nem está ligado a alguma denominação religiosa, estando congregado desde 1981 somente ao Nome do Senhor Jesus. Esta mensagem originalmente não contém propaganda. Alguns sistemas de envio de email ou RSS costumam adicionar mensagens publicitárias que podem não expressar a opinião do autor.)

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