As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.
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A Biblia ensina que cristaos congregavam no Templo?



https://youtu.be/GnvOYjjmXi0

Você indicou um vídeo de um pastor que diz que é um erro cristãos não congregarem em um templo, pois lá em Atos 2:46 diz que eles “perseverando unânimes todos os dias no templo”. Segundo ele, apesar de os primeiros cristãos também serem vistos congregando em casas, eles não faziam da adoração no lar um substituto para a adoração no Templo. Nas palavras desse pastor, "quem não entender isso sofre de algum grau de analfabetismo funcional".

Quem acha que é possível entender a Bíblia com tudo junto e misturado cai em erros assim. Vai achar que, por encontrar os discípulos nos Evangelhos adorando a Deus no Templo, e fazendo isso até nos primeiros dias da história da Igreja, deverá imitá-los. Mas fazer isso é não entender que o Templo de Jerusalém — e não alguma construção católica ou protestante — era o único lugar de adoração autorizado pelo Senhor para Israel.

Os primeiros cristãos continuariam fazendo assim por inércia, até que Paulo recebesse a revelação do que é a Igreja e eles entendessem que o lugar já não seria mais o Templo físico que estava em Jerusalém, mas o Nome do Senhor. Pela doutrina revelada a Paulo entenderiam que havia agora três classes de pessoas no mundo: "Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos [gentios], nem à igreja de Deus." (1 Co 10:32).

Mas antes até que essas coisas viessem à luz Jesus já havia anunciado um momento de ruptura com aquela ordem de coisas, quando disse à mulher samaritana: "Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade." (Jo 4:21-24).

Essa ruptura seria depois cimentada pela revelação do que é a Igreja, dada inicialmente ao apóstolo Paulo, e também por epístolas como aos Gálatas e Hebreus. Isso além de eventos indicando que devia ser assim, como a permissão de Deus para que os cristãos fossem afugentados de Jerusalém pela perseguição desencadeada com a morte de Estêvão (veja Atos 11:19) e o Templo fosse destruído no ano 70. 

Acredito que falte a esse pastor do vídeo que você indicou o entendimento que me faltaria se eu socorresse um acidentado e tentasse reconstruir seu corpo. Por não ser médico eu acabaria costurando os órgãos no lugar errado, na ordem errada e para cumprirem funções erradas. O resultado seria um corpo bem ao estilo Frankenstein. Assim são as denominações existentes na cristandade, e é assim que muitos de seus ministros tentam explicar a Bíblia, sorteando os versículos que mais lhe agradam.

Paulo instruiu Timóteo assim: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.” (2 Tm 2:15). A versão de J. N. Darby, se traduzida para o português, ficaria assim: “Esforça-te diligentemente para apresentar-te aprovado a Deus, como obreiro que não tem de que se envergonhar, cortando com precisão a palavra da verdade”. Nesta versão a imagem que temos é de um bisturi nas mãos de um hábil médico separando os órgãos corretamente segundo seu lugar, posição e função.

A primeira edição da Bíblia em inglês, publicada em 1535 por iniciativa do Rei Tiago da Inglaterra, ou “King James”, trazia um prefácio de Miles Coverdale que trazia um conselho semelhante: “Será de grande auxílio para entenderes as Escrituras se atentares, não apenas para o que é dito ou escrito, mas de quem e para quem, com que palavras, em que época, onde, com que intenção, em quais circunstâncias, e considerando o que vem antes e o que vem depois”.

Então não se pode querer entender a Bíblia como um saco de versículos que você sacode, mistura, e tira dali uma passagem qualquer para embasar uma doutrina. Como escreveu Coverdale, é preciso saber “de quem e para quem... onde, com que intenção, em quais circunstâncias” aquela passagem apareceu ali.

Quando aprendemos História do Brasil a professora começou falando de Cabral e do descobrimento, e não da Operação Lava-Jato, e isso para não ficar dúvida de que Cabral ela estava falando. Assim também a revelação de Deus foi progressiva e dada em etapas, e até mesmo quando Jesus andou aqui ele deixou claro que não tinha contado a história toda a seus discípulos. Ele disse: “Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar.” (Jo 16:12-14). Disto já dá para perceber a insanidade que é alguém achar que pode entender a Bíblia lendo apenas o que Jesus ensinou nos Evangelhos.

A carta aos Hebreus fala da revelação incompleta recebida pelos profetas do Antigo Testamento: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho.” (Hb 1:1). Em alguns casos o próprio entendimento dos profetas era incompleto até para coisas que lhes havia sido reveladas. Eles liam e não entendiam, como aconteceu com Daniel: “Eu, pois, ouvi, mas não entendi; por isso eu disse: Senhor meu, qual será o fim destas coisas? E ele disse: Vai, Daniel, porque estas palavras estão fechadas e seladas até ao tempo do fim.” (Dn 12:8-9). Daniel tinha em mãos uma mensagem criptografada que ele próprio não poderia ler e entender.

Pedro fala de algo parecido: “Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar.” (1 Pe1:10-12).

Quando chegamos em Atos dos Apóstolos encontramos a igreja recém formada, mas não compreendida pelos próprios discípulos sobre os quais o Espírito Santo desceu em línguas como que de fogo. Pedro tem ali uma revelação de que em parte aquilo era semelhante à profecia feita em Joel 2:28. Mas tudo indicava que ele estava se referindo apenas à semelhança, porque não vemos que naquele momento tenham aparecido “prodígios em cima, no céu; e sinais em baixo na terra, sangue, fogo e vapor de fumo”, e nem se converteu o sol em trevas “e a lua em sangue” (At 2:16-20; Jl 2:28-31).

Portanto naquele estágio da revelação de Deus nos primeiros capítulos de Atos nem Pedro sabia muitas coisas, como logo ficaria comprovado no episódio com Cornélio. Ele não fazia ideia de que as chaves que recebera do Senhor nos Evangelhos serviriam para introduzir os gentios e samaritanos, além dos judeus que acabavam de ser acrescentados à Igreja em Atos 2. Enquanto isso Deus estaria preparando um vaso escolhido para receber o que faltava ser revelado dos mistérios de Deus. “Disse-lhe, porém, o Senhor: Vai, porque este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel.” (At 9:15). Paulo depois diria:

“Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios; se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada; como me foi este mistério manifestado pela revelação, como antes um pouco vos escrevi; por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho; do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder. 

A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo; para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus, a mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo; para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus.” (Ef 3:1-10).

Percebe agora a razão de não ser possível entender a Bíblia apenas sacudindo um saco de versículos e tirando aquele que bem entender? Existe uma ordem, e o Livro de Atos é exatamente isso, atos ou ações dos apóstolos e da Igreja ao longo de seu período inicial, incluindo falhas e reajustes, como aconteceu no caso da distribuição de alimentos.

No capítulo 2 os primeiros cristãos “estavam juntos, e tinham tudo em comum, e vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister.” (At 2:44:45). Aquilo era uma iniciativa deles, mas não durou porque logo o egoísmo se fez presente: “Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano.” (At 6:1). A partir daí os apóstolos precisaram decidir como organizar aquilo, mostrando que eles viviam um tempo de transição. Por isso tomar de um versículo isolado em Atos 2 para afirmar que cristãos devem adorar em um templo é não entender isso.

Para começar, só havia um Templo instituído por Deus e qualquer judeu estava proibido de adorar ou oferecer sacrifícios em outro lugar que não fosse no Templo de Jerusalém. Sinagogas não eram templos e nem lugares de adoração, mas escolas de judaísmo onde os judeus liam e aprendiam as Escrituras. Se os primeiros discípulos ainda frequentavam o Templo de Jerusalém em Atos 2 era por não entenderem o que era a Igreja, e isso porque Paulo precisava antes se converter e receber a revelação do "mistério" para poder explicar. E se encontramos alguns indo às sinagogas depois disso, um leitor atento saberá que iam lá pregar o evangelho aos judeus, e não congregar com os judeus.

Acredito que já deu para você entender a dificuldade daquele pastor em entender a razão de encontrarmos os primeiros cristãos visitando o Templo de Jerusalém. As faculdades de teologia das diferentes vertentes denominacionais preparam seus ministros segundo o "corpo doutrinário", que é a expressão que os pastores usam para a doutrina que caracteriza cada denominação. É esse "corpo doutrinário" que irá definir como deve ser o entendimento da Bíblia naquela instituição religiosa em particular. Quando se tratar de uma instituição que prega obras da Lei, creio que o nome mais adequado para o "corpo doutrinário" seria "cadáver doutrinário", pois a doutrina de Paulo deixa muito claro que a letra da Lei só podia matar, e não dar vida, por isso a chama de "ministério da morte".

"Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte. Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra... [Deus] nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica. E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, veio em glória, de maneira que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos na face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, a qual era transitória, como não será de maior glória o ministério do Espírito?" (Rm 7:5-6; 2 Co 3:6-8).

Por isso, ainda que diferentes ministros de diferentes denominações possam argumentar que tudo o que está em seu "corpo doutrinário" veio da Bíblia, fica óbvio que cada uma sorteou as passagens que melhor se encaixassem numa doutrina já determinada pelos fundadores ou pelo poder central daquela denominação. O resultado é uma cristandade cheia de monstros doutrinários ao estilo Frankenstein, que inegavelmente foram montados com passagens bíblicas costuradas entre si, mas completamente fora de seu lugar e da função que Deus determinou para elas.

Hoje entendo melhor o que um irmão da Califórnia, que já está com o Senhor, queria dizer quando se referia a algum "Seminário Teológico", ou "Theological Seminary" em inglês, como "Theological Cemetery" ou "Cemitério Teológico". O som do trocadilho funciona melhor no inglês.

por Mario Persona

Mario Persona é palestrante e consultor de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional (www.mariopersona.com.br). Não possui formação ou título eclesiástico e nem está ligado a alguma denominação religiosa, estando congregado desde 1981 somente ao Nome do Senhor Jesus. Esta mensagem originalmente não contém propaganda. Alguns sistemas de envio de email ou RSS costumam adicionar mensagens publicitárias que podem não expressar a opinião do autor.)

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