As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.
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Os discipulos nos evangelhos eram cristaos?



https://youtu.be/jn_KqZ3xS_s

Ao ler a Bíblia tenha em mente a passagem de 2 Timóteo 2:15, que diz: "Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.". No original grego o verbo traduzido como "manejar" é "repartir" ou, mais precisamente, "cortar corretamente". O sentido é o de separar cada parte colocando-a no seu devido lugar, como quando se faz a autópsia de um corpo separando cada órgão segundo a sua função.

Eu poderia responder à sua dúvida dizendo apenas "sim" ou "não", mas um bom advogado não iria se dar por satisfeito apenas com isso. Todo bom advogado sabe que ao começar a redigir um contrato ou processo é preciso identificar e qualificar as partes. Uma vez bem identificados e qualificados, o advogado passa a chamar uma parte simplesmente de "Locador" ou "Vendedor" e a outra de "Locatário" ou "Comprador", num contrato de locação ou compra e venda, ou "Demandante" e "Réu" em um processo civil. Assim evita-se repetir os nomes, sobrenomes, endereço, estado civil, documentos etc. toda vez que for falar de um ou de outro ao longo do contrato ou processo.

Portanto entenda que a maior parte do texto será para identificar e qualificar as partes. Só assim entenderemos que os termos usados na Bíblia podem ter significados diferentes, dependendo do lugar e do momento quando aparecem. Por exemplo, a palavra grega "eclésia", traduzida como "igreja", aparece em muitas partes do texto original do Novo Testamento, mas pode ter significados diferentes dependendo do contexto. Na maioria das vezes ela é sinônimo do conjunto dos salvos por Cristo, mas nunca de um edifício de pedras ou tijolos. Ninguém no período dos apóstolos diria que comprou tijolos para construir uma igreja, porque não faria sentido. Ela é edificada com "pedras vivas", como escreveu Pedro: "Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo." (1 Pe 2:5).

Mas "eclésia" aparece também como uma reunião de pessoas em geral, como em Atos 19:32: "Uns, pois, gritavam de uma forma; outros, de outra; porque a assembléia (eclésia) caíra em confusão. E, na sua maior parte, nem sabiam por que motivo estavam reunidos". Você teria coragem de dizer que esses, que no versículo 28 clamavam: "Grande é a Diana dos efésios", eram discípulos de Cristo? Modernamente a palavra "igreja" virou sinônimo de um edifício de tijolos ou de uma organização religiosa que reúne apenas os simpatizantes de uma doutrina peculiar. Nada disso é bíblico. Se quiser entender a Bíblia você nunca poderá buscar entendimento na cristandade, que é o que os homens fizeram com o cristianismo depois de adaptá-lo às suas próprias maneiras.

O termo "sinagoga" é outro bastante mal utilizado por cristãos hoje. Depois que muitos passaram a usar "igreja" como sinônimo de um edifício físico onde pessoas se reúnem para ler e ouvir as Escrituras, não foi difícil acharem que "sinagoga" e igreja eram a mesma coisa no Novo Testamento. Afinal, se Jesus frequentava a sinagoga nos evangelhos e os primeiros discípulos iam à sinagoga no livro de Atos, que era um edifício de pedras, conclui-se que sinagoga e igreja seriam a mesma coisa, um lugar físico onde se vai para ouvir a Palavra, orar, adorar e louvar a Deus, certo? Errado. Se você entendeu que igreja é um conjunto de pessoas, e mais precisamente o conjunto dos salvos por Cristo, então precisa entender que sinagoga não é a mesma coisa. Sinagoga é um edifício de pedras ou tijolos, e basta colocar os óculos para enxergar que sinagoga sempre aparece associada ao judaísmo, e não ao cristianismo. Tratava-se de um local de leitura e orações para os judeus, como também é hoje.

Na sinagoga eram lidos os livros do Antigo Testamento por judeus e para judeus. Ninguém ia à sinagoga para ouvir falar de Jesus. "Ia sim", você dirá, "porque encontramos os apóstolos pregando nas sinagogas". Sim, porque eles iam lá para falar de Jesus, tentar convencer os judeus de que Jesus era o Cristo profetizado no Antigo Testamento. Em Atos 19, Paulo "entrando na sinagoga, falou ousadamente por espaço de três meses, disputando e persuadindo-os acerca do reino de Deus. Mas, como alguns deles se endurecessem e não obedecessem, falando mal do Caminho perante a multidão, retirou-se deles, e separou os discípulos, disputando todos os dias na escola de um certo Tirano... E, querendo Paulo apresentar-se ao povo, não lho permitiram os discípulos. E também alguns dos principais da Ásia, que eram seus amigos, lhe rogaram que não se apresentasse no teatro." (At 19:8-9, 30-31).

Paulo ir à sinagoga anunciar Cristo aos judeus não fazia da sinagoga o lugar de reunião dos cristãos, como também o fato de ele ensinar o Evangelho "escola de um certo Tirano" não fazia dela o primeiro seminário teológico, como querem alguns, e nem Paulo precisou estudar artes cênicas para se apresentar no "teatro". Então anote aí: Na sinagoga congregavam os judeus para estudar judaísmo, Tirano era um professor grego que dava aulas de filosofia e retórica na escola que levava seu nome, e o teatro era um espaço público usado para peças teatrais e palestras. Nada disso é igreja e os apóstolos usavam lugares assim para pregar o Evangelho. Simples assim.

Mas as idas dos apóstolos e outros discípulos às sinagogas não durou muito, porque logo um cristão que fosse à sinagoga ganhava uma passagem só de ida para o calabouço. Os judeus prendiam e matavam seguidores de Cristo pelo crime de serem seguidores de Cristo, enquanto continuavam com sua prática do judaísmo nas suas sinagogas. Saulo, como bom judeu e fariseu que era, foi um que caçava cristãos antes de se converter e ser conhecido como Paulo. Sinagogas existem até hoje como lugar de reunião de judeus. Vá a uma e veja se tem alguém lá falando de Jesus. Entendeu a diferença?

E Templo? Bem, a palavra significa um lugar de adoração que podia ser de religiões pagãs ou do judaísmo. No caso do judaísmo só existia um Templo, que era o de Jerusalém. Não era nas sinagogas que os judeus iam oferecer sacrifícios, entregar seus dízimos e ofertas, e adorar. Era no Templo, e este não existe mais. Portanto, Igreja, a reunião de pessoas que creem em Cristo não é Templo. Mas Jesus não frequentava o Templo, expulsava os mercadores dali e até dizia que era a casa de oração de seu Pai. Sim, porque ele era judeu e nos evangelhos o testemunho de Deus na terra ainda estava nas mãos dos judeus. Mas em João 4 ele revelou à mulher samaritana que aquilo tudo iria terminar, e não seria mais no templo de Jerusalém que as pessoas iriam adorar. Elas passariam a adorar em espírito e em verdade, ou seja, sem ligação com um lugar físico.

Mas acaso os primeiros cristãos não perseveravam "unânimes todos os dias no Templo" em Atos 2:46? Sim, mas a pergunta deveria ser outra: "Os primeiros cristãos sabiam o que era a igreja?". Não, pela mesma razão que os índios e os primeiros filhos de portugueses que nasceram aqui não sabiam que eram brasileiros. Se você tiver um pouquinho de conhecimento de como se deu a revelação da doutrina dos apóstolos saberá que o mistério do que é a igreja esteve oculto dos profetas do Antigo Testamento e até mesmo dos apóstolos e discípulos do início do livro de Atos. Esse mistério ou segredo seria revelado a Paulo antes de ser conhecido dos outros apóstolos, e Paulo no começo do livro de Atos estava muito ocupado caçando cristãos para saber disso. Vamos deixar que o próprio apóstolo explique isso:

"Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios; se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada; como me foi este mistério manifestado pela revelação, como antes um pouco vos escrevi; por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho; do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder. A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo,e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo; para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus." (Ef 3:1-10).

Então, recapitulando, "igreja" vem do grego "eclésia" e biblicamente significa um conjunto de pessoas salvas pela fé em Jesus e feitas, por ele, membros do "seu corpo, que é a igreja" (Cl 1:24). "Templo" só existia um e não existe mais, e era dedicado ao judaísmo. O único Templo autorizado por Deus foi frequentado pelos primeiros cristãos enquanto o entendimento do que era a Igreja permanecia um mistério até ser revelado a Paulo. Depois, quando entenderam esse mistério, eles pararam de frequentar o Templo (a não ser quando algum ia lá para convencer judeus de que Jesus era o Messias). Mas para não deixar dúvidas Deus providenciou que os romanos demolissem o Templo e se hoje alguém constrói um templo qualquer não está fazendo algo dentro dos planos de Deus.

Existem outros erros costurados na prática cristã que são como remendos do pano velho do judaísmo, e fazem a cristandade moderna parecer roupa de criança em festa junina, toda remendada. Infelizmente a maioria nem percebe isso e segue achando que Igreja é o Templo, que sinagoga é igreja, e que o batismo de João Batista era igual ao que praticamos hoje. Ah, eu não falei do batismo de João, não é mesmo? Pois é, João batizava judeus para o arrependimento, enquanto avisava que o Rei e Messias dos judeus estava chegando. Eles, que tinham conhecimento de Deus e eram guardiões de seus oráculos, tinham se afastado tanto de Jeová que precisavam se arrepender.

Para tornar uma longa história curta, Deus havia prometido o Messias para os judeus, mas era preciso que fossem avisados disso, e era essa a missão de João. "E, naqueles dias, apareceu João o Batista pregando no deserto da Judeia, e dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus. Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas...[enquanto pregava] o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados. E toda a província da Judeia e os de Jerusalém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados." (Mt 3:1-3; Mc 1:4-5).

Para que você nunca mais se esqueça da missão de João, o batista, pense nos batedores de motocicleta que precedem a limusine presidencial. Eles abrem caminho no trânsito e tocam suas sirenes para avisar que o presidente chegou. Quando o presidente chega ao seu destino os batedores desaparecem porque cumpriram sua missão. João era assim, exceto pela motocicleta. Ele avisava que o Rei de Israel estava chegando e preparava as pessoas para recebê-lo, batizando-as com seu batismo de arrependimento. João não batizava em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, pois caberia a Jesus trazer essa nova revelação desconhecida dos judeus. Batizar ou lavar pessoas com água não era novidade para os judeus, pois no judaísmo havia rituais assim, como aquele em Êxodo 30, quando o Senhor ordenou a construção de uma grande pia de bronze na qual Aarão e seus filhos deviam se lavar antes de entrarem no Tabernáculo.

Mas se João antecedia o Rei Jesus, e preparava seus súditos, tudo era feito visando o estabelecimento do Reino do Cristo na terra. Se você voltar a colocar seus óculos para ler os evangelhos, irá reparar que a partir de um certo momento Jesus vai sendo rejeitado pelos judeus e começa a cortar suas relações com eles e seus laços naturais com aquela nação. Ele até deixa de considerar Maria formalmente sua mãe, dando uma indicação clara dessa ruptura.

"E a multidão estava assentada ao redor dele, e disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos te procuram, e estão lá fora. E ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos? E, olhando em redor para os que estavam assentados junto dele, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Porquanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe." (Mc 3:32-35).

Você irá perceber também que a partir de certo ponto João Batista é literalmente tirado de cena nova concepção das coisas. Se Jesus "veio para o que era seu, e os seus não o receberam" (Jo 1:11), agora ele vai reunir discípulos de um reino futuro, que é chamado "dos céus" no primeiro evangelho, porque de lá ele veio, ou também chamado "de Deus" nos outros evangelhos, porque o "Emanuel" ou "Deus conosco" estava na terra apresentando o escopo moral divino de seu reino. Esse "reino", que estava no meio dos judeus enquanto seu desprezado Rei andava por aqui (Lucas 17:21), deixou essa forma quando Jesus ascendeu aos céus, porém passou a ser um reino presente em mistério, isto é, oculto aos olhos.

Todavia, todos os que reconhecem o Senhorio de Cristo estão incluídos na esfera desse reino invisível, para o qual os princípios morais que o regem foram ensinados por Jesus nos evangelhos. E aqui mais uma distinção importante de palavras: Jesus é Rei para os judeus que participarem desse reino, cuja manifestação é futura, mas ele não é Rei da Igreja. É errado um cristão chamar Jesus de "meu Rei", e a menos que sua noiva ou esposa chame você assim, você irá entender que existe uma grande diferença entre ser súdito de um Rei e noiva de um Senhor. Então anote aí: "Para nós [cristãos deste período da Igreja] há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo" (1 Co 8:6). Mesmo que você seja um cristão da Bahia, não é correto chamar a Jesus de "meu Rei". Chame Jesus de "Senhor" e a Deus de "Pai" que estará de bom tamanho biblicamente.

Mas talvez seja melhor eu nem mencionar que a Igreja não é o Reino, mas está atualmente na esfera do Reino até sair da terra, quando então o Reino continuará aqui ainda não manifesto por cerca de sete anos. Serão anos de grande sofrimento para aqueles que não tinham escutado o evangelho e escutarão nesse período, se convertendo e sendo perseguidos até Cristo descer dos céus. Ele colocará seus pés no Monte das Oliveiras e irá julgar as nações e estabelecer seu Reino, então de forma manifesta a todos, numa terra parcialmente restaurada para receber seus moradores. Mas, como eu disse, nem vou mencionar isso porque é muita informação.

Voltando a João Batista pregava o evangelho do Reino que tinha chegado, no qual se entrava pelo arrependimento e vivendo como era exigido de um súdito do Rei Jesus. Mas a partir de sua rejeição, Jesus e seus discípulos continuaram a pregar o evangelho do Reino, porém visando agora um reino futuro onde os súditos de Cristo viveriam e reinariam "com Cristo durante mil anos" (Ap 20:4) neste mundo. (De onde você acha que o diabo tirou a ideia para inspirar Hitler em seu Reich de mil anos?). E foi nesse contexto desse Reino futuro que Jesus ensinou os discípulos a irem por todo o mundo batizando e fazendo discípulos para Cristo, que é Jesus.

Essa missão que ele deu aos doze nunca foi realizada porque logo viria a cruz, a ressurreição e a ascensão de Cristo ao céu. Aqueles apóstolos a receberam a missão como representantes de judeus que ainda irão se empenhar em cumprir tal missão, embora hoje os cristãos acatam a mesma ordem, porém não para levar o evangelho do Reino, mas o evangelho da graça, que é outra coisa diferente. Um cristão não anuncia "arrependei-vos que é chegado o Reino", mas "crê no Senhor Jesus e serás salvo". E não coloca como perspectiva para o evangelizado morar mil anos na terra, mas viver eternamente nos novos céus.

Mas vamos interromper aqui para um intervalo. Que intervalo? Aquele que estava previsto antes da Criação, porém que você não encontra no Antigo Testamento, que é o tempo presente em que não é Israel o testemunho de Deus sobre a terra, mas a Igreja. "Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada; como me foi este mistério manifestado pela revelação, como antes um pouco vos escrevi" (Ef 3:2-3), escreve Paulo, dando o nome de "dispensação da graça de Deus" a este tempo da Igreja que até então tinha sido um mistério ou segredo oculto dos profetas do Antigo Testamento, e apenas pincelado nas palavras de Jesus em Mateus 16:18, quando disse "edificarei a minha igreja", usando o verbo no futuro em relação ao tempo dos evangelhos.

Entramos agora no intervalo, como se alguém tivesse tirado a pilha do relógio das profecias bíblicas para só recolocá-la depois dos intervalos. Só então terminarão de se cumprir as profecias do Antigo Testamento com a ajuda do livro de Apocalipse a partir do capítulo 4. Então espero que você não seja mais um a me escrever perguntando em que "trombeta" de Apocalipse estamos, porque não estaremos aqui quando elas tocarem. Parado o relógio profético, em Atos 2 cumpria-se a promessa feita aos discípulos de que Jesus enviaria o Espírito Santo para estar, não só com eles, mas neles para sempre. Cumpria-se também, em semelhança e parcialmente, a profecia do Antigo Testamento feita por Joel. Digo parcialmente porque a profecia completa fala de "aparecer prodígios em cima, no céu; e sinais em baixo na terra, Sangue, fogo e vapor de fumo. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue" (At 2:19-20).

A descida do Espírito ocorreu no dia de Pentecostes, quando foi formada a Igreja que era o mistério escondido em Deus e que não existia no Antigo Testamento e nem foi mencionada nos evangelhos, exceto em duas pequenas passagens em Mateus 16 e 18. Nesse dia em Atos 2, e somente nesse dia, ocorreu também o batismo no Espírito Santo, ao qual Paulo se referiu com estas palavras: "Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito." (1 Co 12:13).

Coloque outra vez seus óculos e você enxergará que Paulo está se referindo a um evento passado quando o Espírito formou um corpo de judeus e gregos, o que obviamente ocorreu antes de Paulo e esses coríntios se converterem. Mas eles foram batizados lá, quando esse corpo, que é a Igreja, se formou. O "selo do Espírito" é outra coisa, e aconteceu "depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória." (Ef 1:13-14).

Depois de viajarmos um bocado vou tentar responder à sua pergunta, que é se podemos dizer que os apóstolos nos evangelhos poderiam ser chamados de "cristãos". Bem, acho que já deu para perceber que para se entender a Bíblia é preciso separar bem as coisas e colocá-las cada uma em seu devido lugar. Se você brincou de massa de modelar quando criança sabe que depois de um tempo de grudar aqui e ali aquelas massinhas de belas cores viravam uma massa de uma cor só: cinza. E é cinza assim a visão que a maioria dos cristãos hoje tem da Bíblia, por não atentarem para suas diferentes cores e sabores, "manejando bem a Palavra da Verdade" e colocando cada coisa no seu devido lugar, sem misturar.

É assim que vamos encontrar o termo "cristãos" sendo usado apenas no livro de Atos e — o que é muito importante — depois de rompidos todos os laços que o cristianismo tinha com o judaísmo. Atos capítulo 11 começa com Pedro explicando para "os apóstolos e irmãos que estavam na Judeia, que também os gentios tinham recebido a Palavra de Deus". Por isso Pedro leva um puxão de orelha daqueles de Jerusalém, "que eram da circuncisão", ou seja, que achavam que o que tinha acontecido com eles em Pentecostes era apenas um avivamento do judaísmo e teimavam viver com remendos do Velho Testamento. Mas não era, como Pedro detalha ao contar a conversão do centurião gentio Cornélio e de muitos outros. E é assim que o capítulo 11 chega ao ponto que nos interessa:

"Os que foram dispersos pela perseguição que sucedeu por causa de Estêvão caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus. E havia entre eles alguns homens cíprios e cirenenses, os quais entrando em Antioquia falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus. E a mão do Senhor era com eles; e grande número creu e se converteu ao Senhor... E sucedeu que todo um ano se reuniram [Barnabé e Paulo] naquela igreja, e ensinaram muita gente; e em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos." (At 11:19-26).

Repare em alguns pontos que são importantes: Primeiro, a separação entre o que era Israel e o que era Igreja ficava muito clara, apesar de o trecho começar com judeus limitando-se a falar de Cristo a judeus. Mas logo "alguns homens cíprios e cirenenses, os quais entrando em Antioquia falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus." (At 11:20). Segundo, a passagem não diz que os convertidos tivessem adotado para si o nome de "cristãos". Eles não precisavam chamar a si mesmos cristãos porque sabiam muito bem de quem eram seguidores, mas os incrédulos, os de fora, precisavam de um nome para identificá-los. Mas essa identificação não era generalizada, pois mais à frente encontramos Paulo e outros sendo identificados como judeus pelos gentios de Filipos, irados por Paulo ter libertado uma jovem possessa: "Estes homens, sendo judeus, perturbaram a nossa cidade" (At 16:20).

Portanto "cristão" começou como um nome inventado pelos incrédulos e este só é encontrado mais uma vez nas Escrituras, primeiro em Atos 26:28 quando Agripa diz a Paulo: "Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão!". Porém o sentido de os de fora chamarem assim só entendemos quando lemos 1 Pedro 4:15-16: "Que nenhum de vós padeça como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou como o que se entremete em negócios alheios; mas, se padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus nesta parte.". Pedro associou "cristão" a rejeição, perseguição e sofrimento, e é assim que deveríamos nos lembrar do termo: "Todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições." (2 Tm 3:12). "Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós.", disse Jesus em João 15:20.

Portanto é melhor tirar da cabeça aquela ideia de que ser cristão é conquistar o mundo para Cristo. Não é. O Senhor é quem voltará no final para julgar as nações e estabelecer o seu Reino milenial neste mundo, do qual participarão um remanescente de judeus que se converterão durante a Grande Tribulação e gentios convertidos pela pregação que eles farão do "Evangelho do Reino". Esses serão todos súditos do Rei, que é Jesus. Enquanto isso, e reinando "sobre a terra" com Cristo, estará sua esposa a Igreja. A esperança e cidadania do cristão não está em morar numa terra restaurada, mas no céu. "A nossa cidadania, porém, está nos céus, de onde esperamos ansiosamente um Salvador, o Senhor Jesus Cristo." (Fp 3:20). É o céu a origem e o destino da Igreja, é para lá que serão levados os que no presente tempo se convertem a Cristo.

"Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele. Dizemo-vos, pois, isto, pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem. Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor... Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados." (1 Ts 4:14-17; 1 Co 15:51-52).

Mas este é um outro mistério que foi revelado também a Paulo mas que não é nosso assunto aqui. Sobre ele e outros assuntos você pode descobrir mais indo no Google ou no Youtube e digitando: arrebatamento + mario persona. E pode fazer o mesmo com toda duvida que tiver, porque tenho muitas respostas já publicadas em texto, áudio e vídeo dos mais diferentes assuntos.

por Mario Persona

Mario Persona é palestrante e consultor de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional (www.mariopersona.com.br). Não possui formação ou título eclesiástico e nem está ligado a alguma denominação religiosa, estando congregado desde 1981 somente ao Nome do Senhor Jesus. Esta mensagem originalmente não contém propaganda. Alguns sistemas de envio de email ou RSS costumam adicionar mensagens publicitárias que podem não expressar a opinião do autor.)

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