As ideias aqui não são originalmente minhas, mas são fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim, como J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros. Uma lista completa em inglês você encontra neste link.
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Pode-se marcar a vinda de Cristo pela data do arrebatamento?



https://youtu.be/ZYZgCWJZxNs

Você escreveu, em tom de desafio, o seguinte: "Estou te enviando uma pergunta feita a vários hereges dispensacionalistas, porém nenhum me respondeu. Agora é a sua vez. No roteiro escatológico dispensacionalista, após o 'rapto' da igreja iniciará o período tribulacional de 7 anos sobre a terra, conhecido como a Grande Tribulação. Após esse período Jesus voltará glorioso para matar os inimigos de Israel e inaugurar o período milenial sobre a terra. Segundo os mesmos, o capítulo 24 de Mateus foi dirigido a Israel e não à igreja. Diante disso, faço a seguinte indagação: Mateus 24:36 diz que daquele dia e hora, com a exceção do Pai, ninguém sabe o dia da sua volta, nem anjos, nem Jesus, . Se pegarmos o roteiro estabelecido pelo dispensacionalista, e hipoteticamente trabalharmos num possível rapto da igreja feita por Jesus nos ares exatamente nesta data, ou seja, 15 de abril de 2018, o cumprimento de Mateus 24:36, na lógica dispensacionalista, se daria 7 anos depois, ou seja, Cristo voltaria glorioso em 15 de Abril de 2025. Tal pensamento não confrontaria a afirmativa de Jesus sobre o 'Ninguém sabe a hora e o dia'?".

Considerando o tom de sua pergunta, que veio com o título “Não deixem esta pergunta morrer, pois foi ela que sepultou o dispensacionalismo”, e também o adjetivo “hereges” com o qual você tachou quem crê na volta iminente do Senhor Jesus para buscar sua noiva, a primeira passagem que me vem à mente nem tem a ver com o assunto da pergunta. Ela está em Provérbios 26:4 -5 e diz: “Não respondas ao tolo segundo a sua estultícia; para que também não te faças semelhante a ele. Responde ao tolo segundo a sua estultícia, para que não seja sábio aos seus próprios olhos.”.

O que parece uma contradição nesta passagem de Provérbios na verdade não é. Em paráfrase ela poderia ser lida assim: “Não responda ao tolo de modo a se tornar tolo pelo fato de responder a ele, como se estivesse entrando na dele. Mas responda ao tolo para trazer à tona a sua estultícia para ele deixar de se achar sábio”. Esta paráfrase parece se alinhar melhor com outra versão da Bíblia traz: “Não responda ao insensato com igual insensatez, do contrário você se igualará a ele. Responda ao insensato como a sua insensatez merece, do contrário ele pensará que é mesmo um sábio.” (NVI).

Portanto minha resposta a você terá por objetivo fazer com que sua insensatez seja magnificada por uma explicação que demonstre seu erro e ajude outros a não caírem em sua conversa. É neste espírito que decidi responder. Há dois tipos de pessoas com dificuldade de entender a Bíblia. Uma é a que usa a Palavra de Deus para cozinhar o cabrito. Refiro-me à passagem da Lei de Moisés, que diz: “Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe.” (Êx 23:19; 34:26). Aquilo que foi dado para alimentar e dar vida não deve ser usado para matar, a não ser o ego, como espada que causa a “divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.” (Hb 4:12).

Outro tipo de pessoa é aquela que busca sinceramente entender, mas ainda não encontrou quem explique, como disse o eunuco a Filipe: “Como poderei entender, se alguém não me ensinar?” (At 8:31). Esta pessoa não parece ser você, mas podem existir outras por aí sinceramente querendo conhecer a resposta. Portanto, como minhas respostas são públicas, é a estas pessoas que procuro dirigir esta resposta, e não necessariamente a quem enviou pergunta, que não perguntou por querer saber, mas apenas para discordar.

Seu primeiro problema está em não compreender o que é o dispensacionalismo e a bendita esperança da Igreja, que é a vinda do Senhor a qualquer momento para buscar sua noiva, a Igreja. Ao que parece você ignora também o significado da palavra “herege”, que é o adjetivo usado para definir pessoas que buscam dividir com base em suas preferências pessoais. O Concise Bible Dictionary define assim:

“A palavra haíresis (αἱρεσις) significa ‘escolher’. A mesma palavra grega é traduzida por ‘seita’ e aplicada às seitas dentre os judeus, como eram os Saduceus e os Fariseus. (Atos 5:17; 15:5; 26:5). Ela foi empregada pelos judeus ao se referirem ao cristianismo. (Atos 24:5; 28.22). Heresias e seitas foram desenvolvidas bem no princípio da Igreja, e eram o resultado da operação da vontade do homem de uma forma ou de outra. A raiz da palavra grega, por significar ‘escolher’, demonstra que uma heresia é algo peculiar. A doutrina que é professada e insistida pode ser verdadeira em si mesma, mas pode ser exagerada ou colocada fora de seu contexto. O resultado mais comum é a formação de um partido ou seita. (1 Coríntios 11:19; Gálatas 5:20; 2 Pedro 2:1). Aquele que insiste em uma heresia é um herético, e depois da primeira e segunda admoestação deve ser rejeitado. (Tito 3:10). Havendo Deus dado em sua Palavra todas as coisas necessárias à Igreja, agora não há espaço para a escolha humana ou para a vontade do homem: ele deve ser um humilde receptor da Verdade. ‘Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?’ (1 Co 4:7).”.

Tendo esclarecido estes pontos, cabe aqui entender que o que muitos opositores chamam de “dispensacionalismo” limita-se à bendita esperança da Igreja da vinda do Senhor para busca-la no arrebatamento, deixando de fora muitas outras verdades importantes resgatadas por irmãos no século 19. Geralmente o foco é colocado na verdade do arrebatamento da Igreja por ser a mais impactante para a incredulidade, que não consegue conceber como Deus faria tal coisa. Mas minha opinião é que as objeções a esta verdade são apenas uma cortina de fumaça para esconder o verdadeiro motivo que preocupa os críticos: A verdade de que na Igreja não existe lugar para um sacerdócio instituído por homens ou para qualquer traço de clericalismo em detrimento dos demais santos, que são chamados de leigos pelo clérigos. Afinal, deter o poder foi sempre o desejo do homem na carne.

Na lista de verdades resgatadas, verdades estas para as quais nem mesmo os reformadores do século 16 atentaram, por mais abençoado que foi seu trabalho de resgate da doutrina da justificação pela fé,  estão, além do arrebatamento da Igreja, a vocação celestial da Igreja (no protestantismo tradicional essa vocação é de habitar num reino na terra); a entrada do crente no santo dos santos (o santuário celestial) pelo sangue de Jesus; a distinção entre Igreja e Reino e entre o evangelho do Reino e o evangelho da graça de Deus; o reino futuro para Israel (e não para a Igreja); a necessidade de se apartar do clericalismo de Pérgamo; a perfeita posição do crente agora em Cristo e diante de Deus; a verdade do corpo de Cristo e a distinção entre o corpo de Cristo e a casa de Deus; o batismo sem conotação de membresia; a presença do Espírito na assembleia a usar quem ele quer; o erro do sistema clerical; a ruína da cristandade e o testemunho remanescente; a realização de todas as promessas (ainda futuras) feitas a Israel, e muitas outras coisas que não são professadas dentro do cristianismo católico ou protestante tradicionais.

Quando você fala do “período tribulacional de 7 anos sobre a terra conhecido como a Grande Tribulação”, talvez esteja generalizando por desconhecer o fato de esse período não ser todo ele chamado de "Grande Tribulação" na Bíblia. Ele será formado pelo “princípio das dores”, que são os três anos e meio iniciais, e só então a “grande tribulação”, que é o período final de quase três anos e meio. Mateus 24:8 diz que todas as coisas que tinham sido reveladas até este ponto do capítulo seriam “o princípio de dores”. Mateus 24:21 fala do que virá depois, “porque haverá então grande aflição [ou tribulação], como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver.”.

Exceto os primeiros versículos de Mateus 24, que falam da destruição do Templo, o que para nós já é história, um leitor atento irá perceber que os outros eventos descritos no capítulo ainda são futuros, e não apenas descrições históricas do que já teria acontecido aos judeus e ao mundo (como quer o protestantismo tradicional). Quem achar que essa “grande aflição como nunca houve desde o princípio do mundo até agora” seja algum dos eventos históricos dos últimos dois mil anos talvez não tenha lido o relato do Dilúvio universal em Gênesis.

Mas vamos às contas feitas por você, de que se fossem sete anos de tribulação após o arrebatamento da Igreja isso permitiria a qualquer um que ficasse na terra poder calcular a data da vinda de Cristo para julgar as nações, tomando como ponto de partida a data em que teria ocorrido o arrebatamento. A expressão “sete anos” costuma ser usada no sentido amplo, mas não exato, pois não sabemos a extensão do período. A ideia de uma semana de anos ou sete anos vem da profecia de Daniel 9:24-27 e da septuagésima semana ainda por se cumprir do período profetizado ali. Veja o texto:

“Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade, para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniquidade, e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o Santíssimo. Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos. E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para si mesmo; e o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações. E ele firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador.”.

Bruce Anstey, em seu livro “Acontecimentos Proféticos”, começa explicando assim em seu capítulo com o título “A Septuagésima Semana de Daniel”:

“A grande multidão de judeus (os ‘muitos’ de Dn 9:27) fará uma aliança com o Império Romano revivido para buscar o que pensarão ser uma proteção das nações árabes vizinhas e da crescente pressão política no Oriente Médio. Confiarão no poder militar de Roma (a Besta) ao invés de confiarem no Senhor. Dn 9:27, Is 28:14-19, Is 8:9, 1 Ts 5:3, Sl 20:7. O remanescente fiel de judeus será aconselhado (provavelmente por meio da voz dos profetas entre eles) a não participar da aliança, mas a santificar o Senhor dos Exércitos em seus corações e confiar somente nEle. Is 8:11-13, Sl 20:7. A assinatura desse ‘concerto com a morte’ e ‘aliança com o inferno’, entre os judeus e a Besta Romana, dará início à semana profética, das 70 Semanas de Daniel, então ainda por se cumprir. Essa semana equivale a um período de sete anos.

Deve ser notado que esse período de sete anos da profecia não se inicia com o chamamento da Igreja, conhecido como arrebatamento, mas com a aliança firmada. Haverá um curto período de tempo entre o arrebatamento da Igreja e o estabelecimento da aliança, talvez um período de dias ou semanas. Está claro que o Império Romano não pode fazer uma aliança com os judeus antes de existir. Isso requer que o Império seja antes restabelecido. Dn 9:27; Is 28:14-19.” (“Acontecimentos Proféticos” - Bruce Anstey).

Mais adiante, ao descrever a Grande Tribulação, Bruce Anstey faz também uma observação quanto ao número de dias, que não totaliza exatos três anos e meio:

“A terrível perseguição causada pela Besta e pelo Anticristo precipita a ‘grande tribulação’ que continuará pelo período de 1260 dias (18 dias menos que os últimos três anos e meio. Três anos e meio são 1278 dias), também chamado de ‘tempo de tribulação’. Mt 24:21-22; Jr 30:7; Dn 12:1; Ap 12:6; Tg 5:17; Ap 8-11:18 (Sétimo Selo).”.

Em outra passagem de seu livro o autor dá alguns detalhes do tempo que será abreviado no final:

“Essa devastadora invasão efetuada pelo Rei do Norte abreviará o final da Grande Tribulação na terra de Israel, após terem passado 1260 dias contados desde a metade da semana. Serão 18 dias a menos que os últimos três anos e meio (1278 dias). Para o bem dos eleitos aqueles dias serão abreviados. Ap 12:6; Mt 24:22. A tribulação termina quando é morta a multidão de judeus apóstatas que, sob o comando do Anticristo, causava a grande tribulação na terra por sua cruel perseguição ao remanescente fiel.”.

Resumindo tudo, embora se costume falar “sete anos de tribulação”, do mesmo modo como 1 Coríntios 15:5 fala que Jesus, ao ressuscitar, “foi visto... pelos doze”, quando naquele momento só restavam onze apóstolos, a expressão “sete anos” não significa literalmente esse espaço de tempo. Primeiro, porque o arrebatamento não é exatamente o ponto de partida para a contagem. A contagem se dará a partir do momento em que o “príncipe, que há de vir... firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador.” (Dn 9:26:27). Ninguém sabe se essa aliança será firmada no dia do arrebatamento, na semana seguinte, no mês seguinte etc. Junte a isso o fato de a segunda metade da semana ter seus dias abreviados e você irá concordar que fica impossível determinar a data exata da vinda de Cristo ao mundo para julgar as nações tomando a data do arrebatamento da Igreja como ponto de partida, conforme você sugeriu.

Talvez você possa evitar essa animosidade toda contra os que aguardam o Senhor em sua vinda para a Igreja se simplesmente procurar conhecer melhor as Escrituras. A ignorância bíblica foi o que causou os maiores terrores nestes dois mil anos de história do cristianismo, e continua causando todos os dias por pessoas fanatizadas por religiões que deixam a Bíblia de lado ou a interpretam usando de passagens fora de seu contexto. Para entender melhor a profecia sugiro a leitura de “Acontecimentos Proféticos”, e para compreender as dispensações, leia “Teologia do Pacto ou Dispensações - Qual a maneira correta de se interpretar as Escrituras?”, ambos escritos pelo canadense Bruce Anstey. Você poderá encontrá-los para baixar gratuitamente em formato e-book no site www.acervodigitalcristao.com.br

por Mario Persona

Mario Persona é palestrante e consultor de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional (www.mariopersona.com.br). Não possui formação ou título eclesiástico e nem está ligado a alguma denominação religiosa, estando congregado desde 1981 somente ao Nome do Senhor Jesus. Esta mensagem originalmente não contém propaganda. Alguns sistemas de envio de email ou RSS costumam adicionar mensagens publicitárias que podem não expressar a opinião do autor.)

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